“Arrufo brincalhão”: Marido de Nigella Lawson diz que ela não se machucou na briga em público.

Lúcia Guimarães

16 de junho de 2013 | 16h49

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(Capa de Sunday People, do Daily Mirror, 16 de junho)

Atualizado em 17 de junho

O ex-publicitário e colecionador Charles Saatchi disse ao jornal britânico Evening Standard que a briga que teve com a mulher, a chef e autora Nigella Lawson não passou de um arrufo brincalhão.  Saatchi admitiu que os dois estavam brigando, há uma semana  numa mesa ao ar livre num restaurante e fizeram as pazes quando chegaram em casa. Nigella que aparece chorando, “não estava machucada”, disse Saatchi e sim triste “porque não gostamos de brigar.”  Ele explicou que apertou o pescoço da mulher para reforçar um argumento. O incidente provocou uma onda de protestos on-line e a curiosa explicação do marido de Nigella ainda não acalmou os ânimos na mídia social.

Violência doméstica não é a praia editorial desta colunista mas aqui vão algumas reflexões sobre mais um episódio viral envolvendo uma grande celebridade.

Um tabloide que pertence ao jornal britânico Daily Mirror publicou no domingo uma série de fotos de autoria de um certo Jean-Paul, em que o milionário executivo de propaganda e influente colecionador de arte Charles Saatchi aparece apertando o pescoço de sua mulher, Nigella Lawson, durante um bate-boca no badalado restaurante Scott’s de Londres. A bela chef inglesa é hoje mais famosa do que seu marido, por sua linha de livros de culinária e seus programas distribuídos em dezenas de países e exibidos pelo canal GNT, aos domingos. Nigella esteve recentemente no Brasil e, por onde passa, conquista simpatia com seu sorriso largo e figura voluptuosa que sinaliza alegria pelos prazeres da mesa, algo que o puritanismo do lado de cá do Atlântico Norte pode estragar.

Pois a série de fotos se tornou um fenômeno de mídia social, à medida que os europeus acordaram e vários fusos horários depois, nós também. A reação indignada reúne tanto os fãs de Nigella, como os que não sabem fritar um ovo e também figuras públicas, de políticos a comentaristas na mídia.

Violência doméstica, gritam os posts no Twitter e no Facebook. Por que o fotógrafo ficou clicando e não defendeu Nigella? Por que não chamaram a polícia? Afinal, a cena se desenrolou num local público. Charles Saatchi, 70 anos, parece fumar como uma chaminé e por isso, o casal é frequentemente fotografado em sua mesa cativa no Scott’s ao ar livre. Outros comensais testemunharam a violência e viraram a cara, mortificados. Teriam feito mesmo se tivessem testemunhado uma altercação física entre duas pessoas não milionárias e não famosas? A direção do Scott’s, que já foi frequentado por Oscar Wilde, mas hoje se contenta com tipos como Tom Cruise, disse que não pode comentar sobre a vida pessoal dos fregueses. O que sugere uma inversão curiosa da disparidade entre classes, no que diz respeito à integridade física de mulheres: se uma mulher é rica e famosa, é proibido interromper a truculência de seu marido.

A chef aparece com uma expressão evidente de agonia nas fotos, chora, beija o marido e em seguida é abandonada na mesa. Saatchi vai para o táxi que os esperava e ela acaba por entrar no carro com ele, visivelmente perturbada.

Horas depois, a revista New Statesman, uma publicação conhecida por sua política à esquerda do centro e por comentário cultural, publicou um artigo  analisando o que há de errado e, em parte, o que justifica a maneira como o caso chegou a uma audiência planetária. Violência doméstica não deve ser escondida. Mas, por ser doméstica, há camadas de significado que tornam um tabloide o pior fórum de ataque ao problema. Não sabemos o que se passou durante os minutos tensos. Não sabemos se o fotógrafo que rapidamente vendeu as imagens ao Daily Mirror fez qualquer esforço para interromper a briga. Mas, num espaço de poucas horas, um dos mais poderosos empresários e mecenas da arte contemporânea britânica se tornou um pária digital.

Charles Saatchi dominou a cena da arte em Londres com sua galeria, seu patronato de artistas então desconhecidos como Damien Hirst, o dos tubarões em formol, e consolidou sua influência especialmente depois da exposição Sensation, na Royal Academy of Arts, que viajou para o Brooklyn Museum, em 1999. O então prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, tentou fechar a exposição Sensation por causa de uma obra de Chris Offilli, A Sagrada Virgem Maria, que usava, além de tinta a óleo, cocô de elefante. Saatchi é um iraquiano de uma abastada família judia que emigrou de Bagdá para Londres quanto era criança. Ele fez sua fortuna como fundador, com o irmão Maurice, da agência de propaganda  Saatchi & Saatchi, responsável pela campanha de Margaret Thatcher e pelo famoso slogan “Labour isn’t working” (“O trabalhismo não funciona”, work quer dizer trabalhar e funcionar). O empresário não se mostra exatamente preocupado em atrair simpatia. Acaba de lançar o livro Be the Worst that You Can Be: Life is Too Long for Patience and Virtue (“Seja o Pior que Você Pode Ser: A Vida É Longa Demais para a Paciência e a Virtude”), que não li, mas que um crítico do jornal Guardian espinafrou como uma medíocre arenga misantrópica.

Se as idas e vindas de um casal famoso da elite britânica não são objeto de interesse, o fato de que alguns minutos capturados em imagem granulada se tornam, sob o escrutínio e a velocidade da mídia digital, decisivos para a narrativa de suas vidas, é motivo de pausa.

Depois de duas semanas consumidas pelo vazamento da espionagem do governo Obama sobre a nossa vida privada, estamos especialmente sensíveis ao que, afinal, constitui a vida privada. Os untuosos tabloides sensacionalistas de Londres já posam de santarrões e conclamam o público a denunciar casos de violência doméstica, como se sua preocupação com o bem-estar social guiasse a cobertura. Comentaristas articulados se apressam a questionar: Se Saatchi se comporta assim em público, o que se deve passar atrás das portas da casa que comprou em Chelsea por US$ 18 milhões? O fato é que, não importa os detalhes de duas vidas, as escolhas feitas por adultos e mesmo a sabida relutância que mulheres em relações abusivas têm de romper o ciclo de violência, vivemos num mundo de julgamento por posts, tweets, curtir e não curtir. O possível ostracismo de Charles Saatchi será determinado pela onipresença viral da imagem de suas mãos apertando o pescoço da Nigella Lawson. E a popular chef, nascida numa família proeminente e acostumada a lavar a roupa suja longe do público, acaba de ter 25 anos de vida profissional redefinidos pela mesma imagem. A vergonha e o julgamento moral, são, cada vez mais, fruto dessa exposição.

 

 

 

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