Como o autor de Fogo e Fúria entrou na Casa Branca

Como o autor de Fogo e Fúria entrou na Casa Branca

Lúcia Guimarães

18 Janeiro 2018 | 12h24

 

O conteúdo de Fogo e Fúria: Por dentro da Casa Branca de Trump, o livro sobre o caos nos primeiros meses do governo Trump foi contestado com veemência pela Casa Branca e provocou o rompimento do presidente com seu ex-conselheiro e principal estrategista político Steve Bannon, o mais citado nas entrevistas do autor Michael Wolff. O presidente disse, num tuíte que, em momento algum, autorizou o extraordinário e não monitorado acesso de Wolff à Casa Branca ao longo de meses, em 2017, acusando o “desleixado Steve” de responsável pelo livro que, apesar de conter já comprovadas fabricações e inconsistências, apresenta um retrato devastador do coração da presidência. O livro vai virar uma minissérie, vendido por uma soma acima de “sete dígitos,” informa a revista Hollywood Reporter, que tem Wollf entre seus colunistas. O autor vai ser o produtor executivo da minissérie sobre o best-seller já vendido para 38 países, inclusive o Brasil. Os direitos para televisão foram adquiridos pela Endeavor Content, braço financeiro e de vendas formada por duas agências de Hollywood, mas o direito de exibição ainda não foi vendido a nenhuma rede ou serviço de streaming digital.

Mas a Bloomberg News acaba de revelar quem abriu a porta para Michael Wolff: o próprio presidente telefonou para o jornalista em fevereiro passado, depois de assistir uma entrevista de Wolff à CNN. Wolff ataca, no vídeo abaixo, seu entrevistador, o âncora Brian Stelter, que cobre mídia no programa semanal Reliable Sources (Fontes Confiáveis). Ele diz a Stelter: “Sem desrespeito, você pode beirar uma figura ridícula.” e segue, acusando Stelter e a mídia americana de defender os próprios interesses nas críticas ao presidente com um zelo religioso.

Trump telefonou para Wolff dando parabéns pela entrevista. O autor aproveitou a conversa e disse que queria escrever um livro sobre os primeiros 100 dias da presidência. Trump teria respondido que muitos outros queriam escrever sobre ele, “fale com a minha equipe.” No dia seguinte, Wolff vendeu a ideia do livro para duas assessoras próximas de Trump, a conselheira Kellyanne Conway e Hope Hicks, a inexperiente ex-modelo elevada a Diretora de Comunicações. O título que Wolff citava para o projeto era The Great Transition: The First 100 Days of the Trump Administration (A Grande Transição: Os Primeiros 100 dias da Administração Trump). E, assim, o autor visto como pró-Trump pela desorganizada equipe presidencial, perambulou à vontade, ao longo de nove meses, pelos corredores do poder, entrevistando, além de Bannon, o genro de Trump, Jared Kushner, o ex-chefe de gabinete Reince Priebus e sua então vice, Katie Walsh e Kellyanne Conway, entre outros.

As palavras de Steve Bannon, no momento expurgado da liderança trumpista, então entre as mais derrogatórias em Fogo e Fúria , especialmente referências a um encontro com representantes russos na Trump Tower e possível criminalidade financeira nos negócios do genro de Trump, Jared Kushner. Ainda que soem como bravata e autopromoção, algumas declarações que ele teria dado a Wolff podem criar mais problemas para o controverso ultranacionalista Bannon. Na semana passada, agentes do FBI bateram à porta de Bannon em Washington com uma intimação para que ele fosse depor diante do grand jury convocado pelo conselheiro Robert Mueller, que investiga a interferência da Rússia na eleição presidencial de 2016. Um grand jury é um corpo de jurados, no caso do reunido por Mueller, de 26 pessoas, encarregado de, em procedimentos sigilosos, examinar provas que possam levar a uma acusacão de crime e também julgar o mérito de uma acusação criminal feita por um promotor. No livro Fogo e Fúria, Bannon se refere ao famoso encontro ocorrido na Trump Tower em junho de 2016, quando Paul Manafort, então diretor da campanha Trump e agora indiciado por Mueller, se juntou a Donald Trump Jr e a Jared Kushner para tentar obter de uma advogada russa sujeira sobre a candidata democrata Hillary Clinton. O encontro é investigado no contexto do hacking russo dos e-mails do Partido Democrata, vazados pelo Wikileaks. A lei federal americana proíbe campanhas de aceitarem dinheiro ou qualquer objeto de valor de pessoas ou entidades estrangeiras.

Steve Bannon (Foto; Jim Lo Scalzo/EFE)

Na terça-feira,16, Bannon passou nove horas diante do Comitê da Câmara que investiga a interferência russa e se recusou a responder perguntas invocando “prerrogativa presidencial.” O site Axios vazou trechos do depoimento de Bannon ao comitê, afirmando que o ex-assessor de Trump cometeu delizes, como, por exemplo, admitir que conversou com assessores de Trump sobre o encontro de 2016 na Trump Tower, revelado pela imprensa americana apenas em julho de 2017. Depois de admitir a conversa, Bannon percebeu que tinha revelado algo que se passou no período da alegada “prerrogativa presidencial” e não quis mais falar.

O New York Times informa que Steve Bannon concordou em cooperar com a investigação de Robert Mueller, o que significa que ele não vai ser forçado a depor sozinho, sem advogado, diante do grand jury e pode ser entrevistado pelos promotores da equipe de Mueller. O motivo da intimação de Bannon não é conhecido. Ele entrou na campanha de Donald Trump para presidente em agosto de 2016 e foi demitido pela Casa Branca em agosto de 2017.

 

 

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