Lembrando Christopher Hitchens: A evolução da amizade com o tetraneto de Charles Darwin

Lúcia Guimarães

17 de dezembro de 2011 | 23h41

 

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Christopher Hitchens, morto na última quinta-feira (Foto Reprodução)

Numa tarde de 2007, o diretor, roteirista e escritor Matthew Chapman estava  instalado na sua sala confortável, em Manhattan, emoldurado por uma avenca  majestosa – o tipo de samambaia que raramente resiste à secura do inverno nova-iorquino. Deduzi corretamente que a planta, geralmente mais feliz na vizinhança da nossa úmida Mata Atlântica, devia sua longevidade à mulher do entrevistado, a atriz Denise Dumont. Chapman me recebera para falar de seu segundo livro, 40 Days and 40 Nights, sobre um julgamento que colocou um grupo de pais de estudantes contra a Secretaria de Educação de Dover, no Estado de Delaware, onde o Criacionismo era ensinado como ciência, lado a lado com a Teoria da Evolução.

A conversa migrou para Christopher Hitchens, cujo comentário elogioso adornava a capa do livro. Naquele ano, Hitchens tinha se tornado um autor bestseller com o lançamento de Deus Não É Grande, Como A Religião Envenena Tudo.  Em companhia do biólogo de Oxford Richard Dawkins, autor de A Desilusão de Deus, Hitchens, que já era um polemista favorito de publicações e talkshows americanos, virou uma espécie de pop star da cruzada anti-religião.

Chapman e Hitchens haviam se encontrado ainda jovens em Londres, frequentando as mesmas festas. “Ele era um comunista muito divertido,” lembra Chapman. “Frequentava a alta classe e não estava nem aí para se privar do que gostava em nome da aparência.” Foi seu interesse , ou melhor, seu desapreço pela religião que afinal aproximou os dois britânicos transplantados para o leste dos Estados Unidos. Chapman é tetraneto de Charles Darwin e, antes de Hitchens, já se preocupava com o ataque da direita religiosa americana à Teoria da Evolução. Em 2000, publicou Trials of The Monkey, An Accidental Memoir, uma relato sobre sua viagem pelo Tennessee, onde, todos os anos, há uma reencenação do lendário Julgamento de Scopes de 1925, em que um professor de biologia foi processado por ensinar a teoria elaborada por seu tetravô e não o Criacionismo.

Comentei com Chapman que havia entrevistado Hitchens sobre Deus Não É Grande. Mas não devo ter contado que a entrevista ocorrera numa sala da Biblioteca Pública de Nova York, minutos antes de um debate do autor com o pastor batista e demagogo-mor Al Sharpton, mediado por Jacob Weisberg, editor-chefe da Slate. Chapman falou de Hitchens com enorme admiração e confessou que não era páreo para ele no esporte de levantamento de copo. Disse que os dois se encontraram para falar de 40 Days and 40 Nights na hora de almoço num dia de semana e que ele havia ficado arrasado com a quantidade de álcool consumida antes, durante e depois da refeição. Em sua memória turva do almoço, ele diz que foi ao banheiro e se olhou no espelho assustado com a falta de controle dos sentidos, preocupada em voltar logo para casa. Quando voltou para a mesa, Hitchens se desculpou: “Desculpe, Matthew, só pedi mais dois uísques porque eu realmente tenho que ir embora. Tenho que participar de um debate com Al Sharpton em 45 minutos.”

Veja um trecho da entrevista que Hitchens concedeu a esta repórter ignorante da carraspana que precedeu o debate. Perguntei se ele se preocupava com os argumentos – não da caricata direita republicana- mas das pessoas que consideravam a fé religiosa parte integral de sua identidade.

Quando a morte de Christopher Hitchens foi noticiada na madrugada de sexta feira, 16 de dezembro, procurei Matthew Chapman, sabendo que ele havia ido a Houston, onde Hitchens estava internado na fase final de seu tratamento para o câncer no esôfago.

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Christopher Hitchens, Mathew Chapman e Richard Dawkins em Houston, em setembro de 2011 (Foto: Cortesia Matthew Chapman)

Leia Antonio Gonçalves Filho, no Sabático, sobre o adeus do ateu Hitchens.

Chapman e e Richard Dawkins, que voou para o Texas com a incumbência de entregar ao amigo um prêmio de Pensador Livre do Ano, conferido pela Freedom From Religion Foundation,  jantaram com o emaciado e já careca Hitchens. “Naquela noite, Dawkins e eu compreendemos que ele não tinha mais tempo,” recorda Chapman. “Mas ele, que mal conseguia digerir uma sopa e já se alimentava principalmente por um tubo, se engajou na conversa. Parecia animado à medida que citava livros, e desfilava referências com precisão extraordinária.”

Como tantos amigos de Hitchens que não conseguiram acompanhar suas mudanças ideológicas – de trotskista a apologista do governo de George W. Bush na invasão ao Iraque – Chapman diz que havia muito o que conversar com o amigo e sugere que havia um pacto de silêncio para evitar atritos. “Eu não concordava com ele em muita coisa,” reconhece. Mas acha que Hitchens manteve amigos em espectros políticos aparentemente inconciliáveis porque demonstrava uma lealdade transparente e corajosa ao que considerava a verdade, ainda que isso lhe custasse amizades e ostracismo, como aconteceu quando se voltou conra Bill Clinton em pleno drama do impeachment.

“Mais do que aversão ao fundamentalismo religioso,” lembra Chapman, “nosso choque maior era com a timidez e a falta de disposição geral para denunciar esta forma de extremismo.” Hitchens afiou sua hostilidade ao que chamava de islamofascismo ao ver seu amigo Salman Rushdie perseguido pela fatwa imposta, em 1989, após a publicação de Os Versos Satânicos.

Pergunto a Matthew Chapman o que tornou um polemista sempre disposto a fazer inimigos, um amigo tão caro para tantos. “Três qualidades,” responde.”Ela era brilhante, ele era muito engraçado e gostava muito de viver. Hitchens era  homem irresistível.”

O último filme de Matthew Chapman, A Tentação, estreia no Brasil no dia 27 de janeiro.

 

 

 

 

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