Matéria Plástica

Lúcia Guimarães

20 de março de 2014 | 22h31

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Foto cortesia Dierk Schaeffer

Uma colunista tem direito às suas próprias opiniões. Mas não tem direito aos próprios fatos. Esta colunista errou no texto “A Conta Chega Depois” publicado no dia 17 de março, ao apontar o Bisfenol A (BPA) como uma substância usada na composição de garrafas plásticas de água e refrigerantes no Brasil. A coluna lamentava a explosão do uso de água engarrafada e declínio do uso do filtro de cerâmica que é considerado um dos métodos de filtragem mais seguros do mundo. A afirmação incorreta sobre o Bisfenol gerou um protesto e um pedido de correção – atendido – por parte da Abinam, a entidade que reúne as mais de 400 marcas de água mineral brasileira. Os refrigerantes e a água mineral de embalagem individual são vendidos no Brasil em garrafas de PET (politereftalato de etileno), considerado seguro para contato com alimentos pela Anvisa, a Associação Nacional de Vigilância Sanitária.
O presidente da Abinam, Carlos Alberto Lancia, falou ao Estado e disse que ele foi o responsável pela chegada do PET ao Brasil, nos anos 90. Antes, a água mineral brasileira era engarrafada em plásticos de PVC. Lancia diz que a Abinam acaba de atualizar seu manual de armazenamento da água para a indústria. Segundo ele, a Abinam recomenda que as garrafas plásticas não sejam expostas ao sol ou a temperaturas acima de 70 graus Celsius. Mas a responsabilidade pelo cumprimento da recomendação é da vigilância sanitária de cada município, ele explica.
Em 2010, Leonard Sax publicou este artigo sobre a possível ação do PET como interferente endócrino na Environmental Health Perspectives, a publicação ambiental associada ao National Institutes of Health, o principal órgão de pesquisa médica do governo federal americano. O estudo não produziu resultados claros e Sax concluiu que é necessário fazer mais pesquisas sobre a relação do PET com a atividade endócrina.
Em fevereiro deste ano, o Journal of Epidemiology & Community Health, uma publicação acadêmica internacional divulgou um paper sob o título “Food packaging and migration of food contact materials: will epidemiologists rise to the neotoxic challenge?” (“Empacotamento de alimentos e migração de materiais com contato com a comida: os epidemiologistas vão enfrentar o desafio neotóxico?”) O estudo revela que o formaldeído, uma substância conhecida como carcinogênica, está amplamente presente em baixas doses nas garrafas plásticas fabricadas com o politereftalato de etileno, PET. E coloca a questão: Considerando a difusão do consumo de refrigerantes e água nestas garrafas, podemos ter um acúmulo significativo mas ainda não reconhecido, da exposição da população?
BPA – Longe das crianças, perto de nós
A Anvisa baniu o BPA de produtos infantis como mamadeiras, chuquinhas e chupetas, em 2012. O BPA “imita” o estrogênio, um hormônio natural que tem papel chave no desenvolvimento de órgãos e do cérebro, especialmente na vida uterina e no começo da infância. O excesso e a falta do hormônio são associados a várias doenças, entre elas, o câncer de mama ou de próstata.
A Anvisa permite a presença do BPA em plásticos que têm contato com alimentos, desde que a substância não ultrapasse o limite de migração de 0,6 miligramas por litro de bebida. Este limite é firmado em acordo com os países do Mercosul.
Em janeiro deste ano, a Food and Drug Administration, FDA, publicou um estudo reavaliando a toxicidade do BPA e concluiu que, em doses baixas, o Bisfenol A não causa dano à saúde. Logo em seguida, na publicação Environmental Health News, cientistas não ligados ao estudo da FDA denunciaram a metodologia da pesquisa e afirmaram, entre as críticas, que a agência não examinou a fundo efeitos sobre o desenvolvimento do cérebro. “É um estudo falho,” disse à Environmental Health News Laura Vandenberg, professora assistente de saúde ambiental da Universidade de Massachusetts em Amherst. A FDA se recusou a conceder entrevista sobre as críticas ao estudo.
A coluna que publiquei no dia 17 era amplamente baseada neste artigo da edição de março/abril da revista Mother Jones sob o título “The Scary New Evidence on BPA-Free Plastics And the Big Tobacco-Style Campaign to Bury it” (“As Assustadoras Novas Provas nos Plásticos sem BPA e a Campanha ao Estilo da Indústria do Tabaco para Enterra-las”). A reportagem de Mariah Blake trata, não só da história recente do BPA na indústria, como de um estudo de 2011 que encontrou atividade estrogênica, isto é, a presença da imitação do hormônio na maioria dos 455 plásticos sem BPA comercializados nos Estados Unidos.
Atividade hormonal
O estudo foi liderado por George Bittner, um professor de Biologia da Universidade do Texas, em Austin, e fundador do CertiChem, um dos laboratórios mais ativos no teste de produtos plásticos nos Estados Unidos. O biólogo conversou com o Estado.
Ao começar seu estudo de amostras dos plásticos sem BPA disponíveis no mercado, Bittner desconhecia a existência de outro estudo, feito na Universidade de Frankfurt e publicado em 2009. Só quando começou a escrever sobre os resultados, soube que o estudo, de autoria de Martin Wagner e Jeörg Woehlman, tinha chegado às mesmas conclusões sobre atividade estrogênica usando métodos diversos. “Há maneiras diferentes de fabricar o PET,” lembra Bittner. “Não sabemos ainda se a diferença na atividade estrogênica é na fabricação ou nos aditivos usados nos plásticos,” disse Bittner.
Informação Assimétrica
O uso do artigo da Mother Jones na minha coluna gerou um protesto do Plastivida, o Instituto Sócio Ambiental dos Plásticos que é um braço da indústria do plástico no Brasil. Numa carta ao jornal, o Plastivida afirma que as regras impostas por agências governamentais como a FDA e a Anvisa bastam para impedir o questionamento da segurança do uso de embalagens plásticas para água e alimentos, uma vez que a regulamentação, segundo o instituto, é baseada em anos de pesquisa de entidades sérias e conceituadas. Até no caso de plásticos com BPA, disse o presidente do Instituto Miguel Bahiense ao Estado, o questionamento é desnecessário. Ele especula que a segurança do BPA pode ser reexaminada à luz de novos estudos, embora cresça a resistência ao uso do produto, com a França promovendo a proibição total de plásticos contendo BPA a partir de 2015. Bahiense disse que desconhece o estudo de David Bittner citado pela Mother Jones. Quanto à certezas da comunidade científica, a repórter Mariah Blake cita mais de 1 mil estudos que concluíram que o BPA é prejudicial à saúde. Um número menor de estudos, afirma Blake, financiado pela indústria americana do plástico, concluiu o contrário. Numa entrevista que contou com a participação de ouvintes da rádio pública americana, Blake falou no problema da “informação assimétrica”, em que uma questão científica é tratada por múltiplas fontes que chegam ao público mas são fontes que não têm a mesma validade. Ela citou também o exemplo de um recente estudo epidemiológico que registrou maior risco de câncer de próstata em homens expostos ao BPA no começo da vida.
“ A generalização assusta o público,” argumenta, com razão, Miguel Bahiense, temeroso da confusão sobre produtos diferentes usados pela mesma indústria. “A nossa posição é ouvir os órgãos que permitem o uso dos produtos.” Cumprir a lei é o que se espera de uma indústria. Mas torcer para que o que não sabemos não vá nos fazer mal é o que menos se espera da ciência.

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