NÃO VIVEMOS NUM PAÍS PÓS-RACIAL, DIZ OBAMA

Lúcia Guimarães

19 de julho de 2013 | 19h02

Pela primeira vez desde que assumiu a presidência, em janeiro de 2009, o primeiro presidente negro americano deu declarações claras e pessoais sobre o racismo nos Estados Unidos. Barack Obama surpreendeu os repórteres que aguardavam o briefing habitual com seu porta-voz na sala de imprensa da Casa Branca. Ao longo de 17 minutos, em voz baixa e pausada, um Obama sombrio disse que Trayvon Martin, o adolescente negro morto na Florida em 2012, poderia ser ele, há 35 anos.  O presidente disse que já foi seguido em lojas de departamentos e sabe muito bem o que é provocar medo nos outros. A franqueza do discurso, uma reação a absolvição de George Zimmerman, assassino de Trayvon Martin, no sábado passado, causou grande repercussão nos Estados Unidos. As palavras de Obama foram recebidas de maneira geralmente positiva por comentaristas negros . E já começam a ser atacadas com virulência por conservadores brancos nas redes sociais. O discurso foi surpresa. Mas a reação, previsível.

Ouça aqui o comentário na Rádio Estadão.

A seguir, as palavras de Obama.

“Quando o Trayvon Martin levou o tiro, eu disse que ele poderia ter sido meu filho. Uma outra maneira de dizer isso é, Trayvon Martin poderia ter sido eu, há 35 anos. Quando você pensa por que há, na comunidade afroamericana tanta dor pelo que aconteceu, é importante reconhecer que ela está observando esta questão através de um conjunto de experiências na história  que simplesmente continuam.

Há muito poucos homens afroamericanos neste país que não tiveram a experiência de ser seguidos quando fazem compras numa loja de departamentos. Eu me incluo entre eles. Há poucos homens afroamericanos que não tiveram a experiência de andar na rua e ouvir o clic das portas de carro sendo trancadas. Aconteceu comigo, pelo menos antes de me eleger senador. Há muito poucos homens afroamericanos que não tiveram a experiência de entrar num elevador e ver uma mulher apertando a bolsa, nervosa e prendendo a respiração até ter a chance de sair dali. Isto acontece com frequência. Não quero exagerar mas este conjunto de experiências informa a maneira como a comunidade afroamericana interpreta o que aconteceu uma noite na Florida. É inescapável para as pessoas reviverem suas experiência de volta. A comunidade afroamericana sabe muito bem que há uma disparidade racial na aplicação das nossas leis criminais. Tudo, desde a aplicação da pena de morte até aplicação leis sobre drogas. E isso tem impacto sobre como as pessoas interpretam o que ocorreu. Isto não quer dizer que os afroamericanos sejam ingênuos sobre o fato de que os jovens afroamericanos têm envolvimento desproporcional como o sistema de justiça criminal. Eles são desproporcionalmente tanto vítimas como agressores. Não estou querendo arranjar desculpa para isso. Embora os brancos interpretem as razões para estes fatos num contexto histórico, eles entendem que parte da violência que ocorre em bairros negros pobres neste país tem origem no nosso passado muito violento. E que a pobreza e a disfunção que vemos nesses lugares pode ser explicada por esta história muito difícil. E o fato de que, às vezes, isso não é reconhecido, faz aumentar a frustração. O fato de que muitos garotos afroamericanos são representados com as pinceladas de generalidades e a desculpa é, bem, há estas estatísticas que mostram que os afroamericanos são mais violentos. Usar desta desculpa para ver filhos tratados de maneira diferente, causa dor. Acho também que a comunidade afroamericana não é ingênua e sabe que, estatisticamente, Trayvon Martin tinha mais chances de levar um tiro de alguém como ele do que por outros. Então, as pessoas entendem o desafio que existem para os meninos afroamericanos. Mas ficam frustradas pela falta de contexto ou que o contexto estea sendo negado. E tudo isso contribui para o senso de que, se um adolescente branco estivesse envolvido no mesmo cenário, de ponta a ponta, tanto resultado  no momento e mais tarde teria sido diferente.

Agora, a pergunta para mim e para muitos é: para onde levamos isso, aprendemos alguma lição e avançamos numa direção positiva? É compreensível que houve manifestações, vigílias e protestos, parte disso tem que ser vivido, desde que não haja violência. Se eu vir alguma violência, vou lembrar às pessoas que ela desonra o que aconteceu a Trayvon Martin e sua família. Mas, além dos protestos ou vigílias, a pergunta é, o que podemos fazer de concreto? Sei que Eric Holder está revisando a situação mas acho importante as pessoas terem expectativas claras aqui. Tradicionalmente estas questões pertencem aos governos estaduais municipais. O Código Penal, o policiamento, são questões de governos locais, não federais. O que não significa que, como nação, não possamos fazer algumas coisas que, acredito, podem ser produtivas. Então, vou mencionar duas coisas específicas que ainda estou considerando com a minha equipe. Não estou anunciando nenhum plano de cinco pontos, mas há algumas área em que todos nós podemos focalizar. Primeiro, precisamente porque o policiamento fica na esfera dos governos estaduais e municipais, seria produtivo que o Departamento de Justiça, os governadores, os prefeitos trabalhassem melhor para treinar melhor as policias neste nível local, para poder reduzir o tipo de desconfiança que existe às vezes. Quando eu estava em Ilinois, passei lei sobre perfis raciais. Fiz duas coisas simples. Uma foi coletar dados sobre a raça de motoristas que foram parados pela polícia. A outra coisa foi dar recursos para treinar a policia do Estado para refletir sobre o preconceito racial e ser mais profissionais nas suas ações. No começo, os departamentos de policia do Estado resistiram mas, eventualmente reconheceram que, se feito de maneira justa e direta, ia ajudá-los a fazer seu trabalho melhor, as comunidades teriam mais confiança neles e, por sua vez, cooperar mais com a polícia. É claro que o policiamento é um trabalho difícil. Então, esta é uma área em que há muitos recursos e boas práticas e onde acho que poderia se tornar concreta se os governos estaduais e municipais forem recepticos E acho que muitos seriam. Vamos ver como poder fazer este trem sair da estação. No mesmo âmbito, acho que seria útil para nos examinar algumas leis estaduais e municipais e ver se elas são escritas de uma forma que possa encorajar altercações, confrontos e tragédias como a que vimos no caso da Florida em vez de desarmar estas altercações. Sei que tem havido comentário sobre o fato de que as leis “Stand Your Ground” na Florida não foram usadas como defesa neste caso. Por outro lado, se estamos mandando uma mensagem, como sociedade, às nossas comunidades, de que alguém armado tem o direito potencial de usar suas armas de fogo, mesmo se tem como sair da situação, isso vai contribuir para o tipo de paz, segurança e ordem que queremos ver? E, para aqueles que resistem à idéia de que devemos repensar algo como as leis “Stand Your Ground”, eu so peço a elas que considerem, se o Trayvon Martin fosse maior de idade e armado, ele poderia ter se protegido naquela calçada? E por acaso acreditamos que ele teria justificativa para atirar no Senhor Zimmerman, que o estava seguindo de carro porque se sentia ameaçado? E se a resposta a esta pergunta for ao menos ambígua, então, acho que devemos reexaminar este tipo de leis. Terceiro, e este é um projeto de longo prazo. Nós precisamos passar algum tempo pensando como apoiamos e reforçamos nossos meninos afroamericanos. É algo sobre o que Michelle e eu conversamos muito. Há muitas crianças que precisam de ajuda, que recebem muito reforço negativo.Podemos fazer mais para lhes dar o senso de que o país se preocupa com elas? E lhes dá valor? E está disposto a investir neles? Não sou ingênuo sobre a possibilidade de algum novo projeto federal grandioso, não acho que estamos falando disso aqui mas eu reconheço que, como presidente, tenho algum poder de aglutinação e há vários bons programas em curso pelo país neste front. E nós devemos ser capazes de reunir lideres empresariais, políticos locais eleitos, religiosos, celebridades, atletas, e ver como podemos ajudar melhor os jovens afroamericanos a sentir que eles são parte desta sociedade e que têm caminhos e avenidas ter sucesso. Acho que seria um bom resultado para o que foi obviamente uma situação trágica. Vamos dedicar algum tempo trabalhando e pensando nisso.

E, finalmente, acho importante para nós refletir. Perguntam, deveríamos ter um diálogo sobre raça? Eu não vi isso ser muito produtivo, quando políticos tentaram organizar diálogos. Eles acabam rígidos, politizados, as pessoas se apegam às opiniões que já tinham. Por outro lado, nas famúilias, igrejas, nos locais de trabalho, há a possibilidade de que as pessoas estejam abrindo os olhos. Ao menos pergunte a si mesmo, estarei contribuindo para o preconceito que vem de dentro de mim? Estou julgando as pessoas o melhor que posso, com base, não na cor de sua pele, mas no seu caráter? Acho que este seria um exercício apropriado ao final desta tragédia Mas quero deixar vocês com um pensamento final. Embora este episódio tenha sido difícil e um desafio para muitos,  não quero que deixemos de ver que as coisas estão melhorando. Cada nova geração parece estar fazendo progresso e mudando atitudes no que se refere à raça. Isto não quer dizer que estejamos numa sociedade pós-racial, não quer dizer que o racismo foi eliminado. Mas, sabe, quando falo com Malia e Sasha, e ouço seus amigos e vejo como interagem, eles são melhores do que somos. São melhores do que éramos nestas questões. E isto é verdade em toda comunidade que visitei no país. Então, temos que ser vigilantes e trabalhar sobre estas questões. Nós que temos autoridade devemos fazer todo o possível para encorajar os melhores anjos da nossa natureza, e não usar estes episódios para exacerbar divisões. Mas também devemos ter confiança de que a garotada, hoje em dia, eu acho, são mais sensatas do que éramos antes e certamente do eram nossos pais e nossos avós, ao longo desta jornada difícil. Estamos nos tornando uma União mais perfeita. Não uma União perfeita. OK? Obrigada, pessoal.”

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