Obama vai à garagem de comediante gravar podcast

Obama vai à garagem de comediante gravar podcast

Lúcia Guimarães

22 de junho de 2015 | 12h18

Marc Maron e Barack Obama/ Foto Pete Souza

Marc Maron e Barack Obama/ Foto Pete Souza

Se o comediante não vai à Casa Branca, é o caso de a Casa Branca ir ao comediante? A notícia de que Obama estava gravando na garagem do comediante Marc Maron, em Los Angeles, surpreendeu até o público acostumado a ver seus presidentes em talk shows de fim de noite. O podcast  WTF, de Marc Maron, foi inaugurado em 2009 e hoje é cult nos Estados Unidos, já foi acessado mais de 500 milhões de vezes. O podcast inspirou uma sitcom semanal autobiográfica exibida no canal de cabo IFC. em que Maron conversa com convidados na garagem, reclama das ex-mulheres, sofre por seus gatos . “Sou um grande fã,” disse o Obama ao chegar e confessou que seria difícil imaginar, mais de 30 anos depois de morar ali perto como calouro de uma faculdade, voltaria como presidente para gravar com um comediante na garagem de sua casa.

A casa nada luxuosa numa rua cheia de curvas ao norte de Los Angeles foi invadida por agentes do Serviço Secreto, um dia antes da gravação, na sexta-feira, 19. “Vai ter atirador no telhado,” explicou o comediante, ainda incrédulo com o convidado que estava para chegar. “Não quero fazer entrevista sobre políticas e sim tentar me conectar com ele.” diz Maron, enquanto espera Obama. “Na minha garagem, que coisa maluca!”, ele exclama, ansioso. “Este lugar é cool,” comentou Obama ao entrar. “Você é um big cheese agora, cara. Não finge que é o cara pequeno, iniciante.” Big cheese é uma gíria para famoso. Obama olha em volta e comenta, em tom de brincadeira, “Tem muita foto de você, não é meio narcisista?” e recordou o tempo em que morou em Pasadena, ali perto, quando começou a faculdade, aos 19 anos. Ele revela que começou a escrever um diário aos 20 anos e manteve o hábito até os 27. Quando relê o que escreveu, acha que é basicamente a mesma pessoa.

“Minha mãe foi a maior influência na minha vida, uma mulher extraordinária,” diz Obama sobre Stanley Ann Dunham. Lembra que ela era muita progressista e lhe transmitiu valores como bondade e solidariedade. Marin diz, “Houve um tempo em que eu governava o país do meu sofá,” ele brinca. “Muita gente faz o mesmo!” reage Obama, sobre seus críticos.

O podcast foi gravado dois dias depois do massacre na igreja negra de Charleston e  Maron admite que é preciso começar pelo assunto. Obama repete o que disse em seu discurso de quinta-feira de manhã. “Nenhum outro país avançado tolera estes massacres com armas de fogo como rotina.” Ele nota que, logo em seguida a cada tragédia, as vendas de armas de fogo nos Estados Unidos disparam, ao contrário da Austrália, onde um massacre na Tasmânia, em 1996, chocou o país tanto que mudaram as leis de porte de armas. Obama reconhece que o eleitor americano não tem o mesmo senso de urgência na questão das armas. Mas acredita que há enorme divisão entre quem são os americanos e como esta identidade é expressada na política e na polarização da mídia. “Se você assiste à Fox News, você habita um mundo completamente diferente do que o de quem lê o New York Times,” diz. “Há lucro em promover esta polarização.” Obama acha a distância entre as instituições políticas e a rotina da população aliena o eleitor.  E explica que está ali na garagem em parte porque é importante chegar ao público de maneira alternativa.

“Há uma aspecto de ser presidente que é gerência de escalão médio, não?” pergunta o comediante. “Acho que você está na direção certa,” responde Obama. Ele conta que entendeu como é difícil mudar o status quo a curto prazo. Cita o exemplo da lei do seguro saúde Obamacare, quando houve enorme frustração por parte dos que queriam um sistema mais unificado. Mas, cinco anos, depois, mesmo com o Obamacare sem agradar a todos, com 16 milhões de novos beneficiados, ele conclui que a democracia funcionou.

Sem que o entrevistador pergunte, Obama passa a falar na guerra ao terrorismo e se defende dos que lhe acusam de agir como George Bush: “Nós encerramos duas guerras. Mas há gente que não pensa duas vezes em explodir um bairro inteiro por motivos ideológicos.” Obama diz que passou os últimos seis anos tentando construir uma estrutura legal para lidar com a ameaça terrorista e, quando os que o apoiaram, questionam as medidas que tomou, ele responde que os excessos cometidos depois do 11 de setembro como a tortura, foram reais mas o governo acabou com eles. O que não quer dizer que os desafios acabaram. “Qualquer que seja a sua ideia abstrata sobre os drones, a coleta de inteligência, se você estivesse ali na Situation Room, aprenderia que tem responsabilidades e escolhas a fazer e não é simples,” diz.  “Sim, então é mesmo como gerência de médio escalão. Às vezes a tarefa de quem governa é fazer as coisas funcionarem, conseguir pequenos progressos, desviar o transatlântico uns dois graus para o sul ou o norte para que, daqui a dez anos, de repente, a gente se encontre num lugar muito diferente.” O presidente comenta que não dá para fazer um desvio de cinquenta graus, não pela influência dos poderosos na política, mas por que as sociedades não fazem isso, como descobriu em questões como raça e meio ambiente. “Sou um cara otimista,” conclui Obama. O notoriamente neurótico Marc Maron pergunta, “Como consegue isso? Eu acordei muito nervoso hoje. Ficou nervoso no helicóptero a caminho daqui?”. Obama ri, diz que não e que seria um problema o presidente ficar com medo de gravar um podcast com um comediante.

Maron lembra que a Suprema Corte está para anunciar sua decisão sobre um desafio ao Obamacare e pode destruir seu maior legado.  Obama responde que acredita que a lei está do seu lado e também que o processo em curso trata de uma interpretação muito estreita do Obamacare. “Se a Suprema Corte nos derrotar,” diz, “5 ou 6 milhões de pessoas perdem o seguro saúde.” Ele reconhece que há frustrações em seu emprego mas lembra a famosa pergunta de Ronald Reagan: “Você está melhor do que antes?” e conclui que, em vários aspectos, a vida dos americanos melhorou no seu governo. Obama diz que é preciso ter a perspectiva a longo prazo para não se deixar consumir pelo dia a dia, por números nas pesquisas. “Parte disso é o meu temperamento, porque nasci no Havaí, você se sente melhor.” Mas ele confessa que, logo depois do massacre de 2012 na escola de Newtown em Connecticut, em que vinte crianças em torno de seis anos foram mortas e o Congresso não fez nada, sentiu raiva. “Foi quando eu me senti enojado,” revela, mas nota que é uma exceção.

O anfitrião lembra a fama de distante e Obama admite que não faz o “circuito de coquetéis,” numa alusão ao fato de sua vida social é restrita. Mas diz que acredita em razão, em fatos, em conversar sobre temas para obter resultados. Não espera que as pessoas concordem com ele mas espera que, quando coloca fatos na mesa, o bom senso prevaleça.  Não adianta ter razão numa política pública, é preciso comunicar o que se faz, ele completa.

Marc Maron pergunta o que aconteceu nas relações raciais. Obama diz que quem não viveu como negro nos Estados Unidos até década de 1970 não tem motivo para alegar que não houve progresso nas relações raciais. “Na minha vida houve progresso,” diz, “é fato.” Mas reconhece que a herança do racismo não foi curada. “E não é porque é rude dizer “nigger” em público,” diz o presidente, numa rara menção à palavra tabu por um homem público. Obama, em seguida, passa a falar sobre a necessidade de promover melhor policiamento sem prejudicar minorias. “Não tenho interesse em ter uma conversa ideológica, quero saber o que funciona  e aplicar.”

O comediante pergunta como o presidente se diverte. Obama diz que o maior divertimento é ver as duas filhas “espetaculares”, Malia e Sasha, crescendo. Conta que elas têm uma vida normal, com bons amigos, não vivem na bolha da presidência. “Infelizmente,” revela, “estão chegando à idade em que eu me torno um tédio. Chegam, dão um tapinha na minha cabeça e somem por todo o fim de semana. E eu fico de coração partido.” Obama confessa que gostava muito de jogar basquete mas agora, aos 53 anos, não se diverte tanto porque não tem o mesmo fôlego. “Não gosto de ser o fraquinho da quadra.”

“Meu pai foi uma figura trágica em muitos aspectos,” lembra Obama, sobre o pai queniano que se casou várias vezes, foi negligente com ele  e morreu alcoólatra. Mas, como quase não conviveu com ele, cresceu com um mito positivo, de certa forma foi poupado enquanto crescia. Conta que diz à mulher Michelle que criar filhos é não passar suas maluquices para eles.  Marin pergunta, “Em que situação a Michelle chega e diz, para com isso?”. Quando está atrasado, ele confessa.

Marin pede a Obama para ensinar aos ouvinte um truque sobre como ficar calmo sob pressão. Obama diz que adora comédia e compara a prática dos comediantes  à prática de um presidente: “Quando você se torna melhor com o tempo, vai perdendo o medo.”  Obama menciona de seus cômicos favoritos – Richard Prior, Dick Gregory, Jerry Seinfeld e fala muito bem de Louis C.K. Marin comenta que Louis C.K. vai nascer de novo.

Ouvindo o podcast, a impressão clara é de que Obama está dando recados sobre o que espera ser o seu legado e sobre suas preocupações para a fase pós-presidencial. O podcast como mídia explodiu nos Estados Unidos nos últimos anos. A visita do presidente a um comediante que, há dez anos, estava tão deprimido que considerou o suicídio na sua garagem, vai ser um marco na história do formato. E, quanto ao significado do título, WTF, seria mais ou menos como Dilma Rousseff gravando um podcast chamado PQP.

Foto de Pete Souza

Foto de Pete Souza

 

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