Pode haver pressão para Dilma cancelar viagem aos EUA, diz analista.

Lúcia Guimarães

02 Setembro 2013 | 15h48

As revelações sobre a espionagem da NSA das comunicações da presidente Dilma Rousseff e do presidente do México Enrique Peña Nieto, feitas no programa Fantástico, da Rede Globo, além de tomar conta da agenda entre Brasil e Estados Unidos, podem criar uma pressão para a presidente cancelar a visita a Washington. A visita está marcada para outubro e Barack Obama vai oferecer um jantar de Estado à presidente, o único evento desta natureza na Casa Branca, em 2013.

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(David Rothkopf – Cortesia Foreign Policy)

A opinião é do analista David Rothkopf, editor da Revista Foreign Policy e acadêmico do Carnegie Endowment for International Peace. Ele critica a falta de compreensão, na capital americana, sobre o grau de irritação causado pelas revelações de espionagem. E teme que Dilma Rousseff perca a chance de transmitir o sentimento brasileiro direto ao presidente Obama.

Como podem as novas revelações afetar as relações entre os dois países?

David Rothkopf: As novas revelações sobre a NSA acrescentam um grau de tensão à relação Brasil-Estados Unidos que, acredito, muitos em Washington não compreendem. Eles parecem não entender que a notícia de que os Estados Unidos espionam diretamente as comunicações da presidente Dilma ou espionam um vasto espectro de outras comunicações com brasileiros se presta aos velhos estereótipos sobre como os Estados Unidos tratam seus visinhos latinos. Para Washington, isto é mais “do de sempre.” Mas, no Brasil, é visto como violação de confiança e de direitos básicos.

Qual o efeito das revelaçõs sobre a próxima visita da presidente Dilma Rousseff a Washington?

David Rothkopf: Estas revelações vão certamente complicar os preparativos para a viagem de Dilma aos Estados Unidos em outubro. No mínimo, vão se tornar o tema não intencional da viagem e ela vai precisar encontrar uma maneira de comunicar seu desagrado com o que está acontecendo. Mas, podem também levar a uma pressão para a presidente cancelar a viagem – o que seria uma pena, já que é a única maneira de reparar o estrago já feito é através de comunicações de alto nível.

O fato de que a agenda Brasil-EUA no momento é uma agenda “light”; que não há muito em curso  com exceção de visitas “pro forma” de altos oficiais; o fato de que os Estados Unidos não respeitaram o desejo do Brasil de ter mais apoio ao seu papel no Conselho de Segurança da ONU – todos estes fatores fazem com que as perturbadoras revelações sobre a NSA tomem uma dimensão muito maior na definição do tom das relações entre os dois países no momento.