Noite de protestos nos EUA após júri se recusar a indiciar policial branco que matou jovem negro.

Noite de protestos nos EUA após júri se recusar a indiciar policial branco que matou jovem negro.

Lúcia Guimarães

25 de novembro de 2014 | 00h52

Darren Wilson Photo post shootingDarren Wilson (Imagem Departamento de Polícia Ferguson)

O policial Darren Wilson, autor dos seis disparos que mataram o jovem negro Michael Brown, no dia 9 de agosto, está livre da justiça criminal do estado de Missouri. Um júri especial de nove brancos e três negros examinou as provas da investigação durante três meses em deliberações e concluiu que o policial não deve ser indiciado. O veredito foi recebido com protestos em Ferguson. Manifestantes incendiaram um carro de polícia e uma pizzaria, policiais reagiram com bombas de gás lacrimogêneo. Manifestantes protestaram em Times Square e vários bairros de  Nova York e bloquearam a Triborough Bridge, que liga Manhattan a Nova Jersey.  Houve protestos em Washington, Los Angeles e várias outras cidades americanas.

O processo do grand jury foi considerado incomum por analistas judiciais, marcado por vazamentos e controvérsia sobre o comportamento do promotor Bob McCullough. Logo após o veredito, a família de Michael Brown se manifestou “profundamente desapontada com o fato de que o assassino de nosso filho não sofrerá consequências por suas ações.”

OBAMA Ferguson

O presidente Obama falou ao país ao vivo uma hora depois do anúncio do veredito em Ferguson. Ele disse, “Somos uma nação de leis” e pediu que o veredito seja respeitado pelos que discordam da conclusão. Obama disse também que o ressentimento demonstrado pelos moradores de Ferguson pelo tratamento de minorias “não foi inventado” e que se junta aos pais de Michael Brown no apelo por manifestações pacíficas.

Protestos em várias cidades americanas haviam sido convocados para a noite de segunda-feira. Uma pequena multidão aguardou o veredito na Union Square de Manhattan e o horário tardio do anúncio,  depois das 8 da noite, hora local de Ferguson (21h em São Paulo) também foi questionado. O Governador do Missouri, Jay Nixon, decretou estado de emergência na semana passada, com a aproximação do veredito. A medida permitiu a convocação da Guarda Nacional para patrulhar Ferguson e cidades vizinhas.
Michael Brown tinha 18 anos e estava para começar seu primeiro ano de faculdade quando foi abordado por Wilson num carro de patrulha em Ferguson, um subúrbio de 21 mil habitantes da cidade de St. Louis, no estado do Missouri. As circunstâncias do confronto entre Wilson e Brown foram amplamente contestadas. Amigos do adolescente desarmado disseram que ele estava de mãos para o ar quando foi abatido por seis tiros disparados pelo policial branco,  que trabalhava há oito anos em Ferguson. Amigos do policial dizem que ele tentava se defender do adolescente que não respondeu à ordem de se render. Vídeo de uma loja de conveniência próxima ao local registrou um jovem identificado como Brown roubando cigarrilhas minutos antes do incidente e empurrando o dono do estabelecimento.

Análise forense mostrou que  o policial fez os dois primeiros disparos ainda dentro do carro, atingindo Michael Brown com uma bala no braço. Brown se afastou do carro em fuga e Wilson o perseguiu a pé, atirando.

Michael Brown Michael Brown (Imagem Divulgação)
A morte de Michael Brown, cujo corpo passou horas caído numa rua de Ferguson, provocou uma das mais violentas revoltas raciais da última década nos Estados Unidos, onde o debate sobre a escala desproporcional de repressão e prisão de jovens afroamericanos afetou, entre outras, a eleição para prefeito em Nova York em 2013.

O Grand Jury, um painel de jurados escolhidos entre cidadãos convocados para julgamentos comuns, se reúne a portas fechadas para decidir se há causa provável para indiciar um acusado. Não cabe a esse painel especial de jurados determinar se todas as provas e depoimentos reunidos numa investigação garantem a condenação. No anedotário judicial norte-americano, diz-se que um “sanduíche de presunto” pode ser indiciado por um grand jury, na medida em que o promotor público seleciona as provas e orienta os jurados, como se estivessem numa sala de aula.

Bob McCullough Robert McCullough (Imagem Divulgação)

O promotor Robert McCullough, do município de St. Louis, foi criticado por analistas jurídicos, acusado de tentar lavar as mãos sobre o destino do caso, ao permitir que o processo se arrastasse, por ter despejado enorme quantidade de informação para o grand jury, convocado especialistas e não ter isolado os jurados durante deliberações. O painel de jurados examinou cinco possíveis acusações de homicídio, doloso ou culposo.

O policial Darren Wilson, escondido desde que matou Michael Brown, se reuniu com âncoras de várias redes de televisão americanas num bizarro ritual de audições para escolher o melhor programa para apresentar seus argumentos. Na noite de segunda-feira, redes americanas noticiaram que Wilson está negociando sua demissão da polícia de Ferguson.

A decisão dos jurados do município de Ferguson de não indiciar Darren Wilson não encerra o caso. É possível que a família de Michael Brown inicie uma ação civil contra o policial. O Departamento de Justiça ordenou uma investigação sobre  possível discriminação racial no Departamento de Polícia de Ferguson e o FBI ainda investiga possível violacão de direitos civis no incidente.