Prevenir incêndios em museus custa caro

Prevenir incêndios em museus custa caro

Lúcia Guimarães

06 Setembro 2018 | 15h01

Museu de História Natural de Nova York (Foto: Divulgação)

Como as coleções são protegidas, nos Estados Unidos, México e Canadá

“Não existe prevenção de incêndio em museus a custo baixo,” diz ao Estado um proeminente cientista do Canadá. Jean Tetreault é o cientista sênior do Canadian Conservation Institute, um órgão do governo que orienta na preservação das coleções canadenses. Ele é autor de um importante estudo sobre o tema e constatou que, com eficiente sistema de supressão (sprinklers) e hidrantes próximos, a possibilidade de um incêndio se espalhar além do foco inicial era de 0.01%.  Sem sprinklers e hidrantes funcionando próximos, a chance de o fogo se espalhar saltava para 19%. Além da supressão e detecção ágil, Tetreault defende o treinamento especial de funcionários – não bombeiros – que possam combater com eficácia o início de um incêndio.

Uma das consequências dos atentados do 11 de setembro foi despertar um senso de urgência sobre a preservação da herança cultural nos Estados Unidos. Em maio de 2004, o Museu de História Natural de Nova York foi anfitrião da conferência Museu SOS: Estratégias para Emergências e Salvamento. A conferência era parte da 19a reunião da Sociedade pela Preservação de Coleções de História Natural, uma organização internacional fundada em 1985.

O Museu de História Natural de Nova York, fundado em 1869, é o mais popular entre crianças, por sua coleção de ossadas de dinossauros, o planetário e é uma das maiores instituições de pesquisa científica do mundo. Abriga 33 milhões de artefatos e amostras de espécies e o Museu SOS foi incorporado como projeto de resposta a emergências no website da instituição, com informações que vão de desastres específicos, como inundação, fogo, recuperação de artefatos a acesso a serviços de emergência.

Localizado perigosamente próximo a áreas consumidas por incêndios florestais no ano passado, o Getty Center foi projetado pelo arquiteto Richard Meyer com materiais que o tornam, segundo o museu, o lugar mais seguro para abrigar a coleção famosa por arte greco-romana e impressionistas. Um gigantesco tanque de água foi construído sob o estacionamento e um sistema de ventilação especial “espanta” chamas das galerias que abrigam Van Goghs e Renoirs.

Mas o orçamento próximo de US$ 1 bilhão do museu inaugurado em 1997 não é exemplo para instituições financiadas com dinheiro público e sangrando recursos há décadas. Grandes museus como o Metropolitan e o Museu de Arte Moderna, MoMA, tem sofisticados sistemas de sprinklers. Mas museus menores, têm dificuldades de atualizar sprinklers ou fazer reformas em instalações elétricas, disse ao website Slate Robert Solomon, diretor da Associação Nacional de Proteção Contra Incêndios, nos EUA. A prevenção a incêndios e outros desastres é parte da formação de quem trabalha com grandes coleções no México, Canadá e Estados Unidos.

Em fevereiro deste ano, o Museo Nacional de Antropología, o mais visitado do México, concluiu um Plano de Salvaguarda de Bens Culturais. O museu da Cidade do México é considerado uma das mais valiosas coleções de história natural do mundo. Sob o novo plano, funcionários administrativos e técnicos foram novamente treinados para lidar com desastres como terremoto ou incêndio. O Museo Nacional firmou convênio com instituições da Espanha – o Prado, o Rainha Sofia e a Biblioteca Nacional – para coordenar salvamento de coleções.

Mariana Di Giacomo (Foto: Divulgação)

A paleontóloga uruguaia Mariana Di Giacomo, fellow da Smithsonian Institution de Washington, agora concluindo seu PhD na Universidade de Delaware, é membro da Sociedade pela Preservação de Coleções de História Natural e responsável pela cooperação da instituição com a América do Sul. Ela disse ao Estado que estava de coração partido com a perda do Museu Nacional. Pela primeira vez, este ano, a Sociedade havia sediado sua conferência no hemisfério sul, na Nova Zelândia, e Di Giacomo tinha esperança de realizar uma conferência no Brasil.

Di Giacomo é especialista em conservação de fósseis e diz que sua rotina inclui atenção constante à proteção de artefatos que manuseia. “Sei exatamente a posição de sprinklers e como convocar equipes,” diz. “É frequente funcionários de museus terem nos crachás números de emergência.” Ela diz que alguns devem manter celulares ligados o tempo todo, outros também guardam em casa mochilas com equipamento essencial – lanternas, máscaras, óculos de proteção – para chegar após um incêndio e, autorizados pelos bombeiros, acessar o estrago. Di Giacomo conta que, em sua experiência, equipes de bombeiros, ao fazer tours de orientação nas coleções, se impressionam com a importância cultural  do salvamento. “Explicamos a eles, por favor, usem o mínimo de água sobre esta ou aquela vitrine e eles levam a sério, como se formassem uma ligação emocional com a coleção,” diz.”

A tristeza da paleontóloga é temperada pela esperança de que a tragédia do Museu Nacional desperte a comunidade sul-americana de museus. “Eu acredito que vai haver um movimento internacional de solidariedade. Instituições vão doar artefatos para o Rio. Depois do inventário do estrago, espero que venha um começo para o Museu Nacional.”