Ted Cruz destrona Donald Trump em Iowa, Hillary Clinton em empate virtual com Bernie Sanders

Ted Cruz destrona Donald Trump em Iowa, Hillary Clinton em empate virtual com Bernie Sanders

Lúcia Guimarães

02 de fevereiro de 2016 | 04h47

 

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ATUALIZAÇÃO: Hillary Clinton foi declarada vencedora do cáucus de Iowa, nesta quarta feira, e vai ficar com 23 delegados do Estado, contra 21 de Bernie Sanders.

Recado para Washington: o establishment não escolhe candidato em Iowa, a mídia também não. O cáucus de Iowa, o primeiro da temporada de primárias estaduais da eleição presidencial norte-americana, deu a vitória, no campo republicano, a Ted Cruz, o senador do Texas que é notoriamente detestado por colegas da bancada do próprio partido. Foi uma vitória de organização em campo e da mobilização do voto evangélico.

O bilionário Donald Trump, outro rejeitado em Washington e favorito em pesquisas, mas não numa pesquisa regional com reputação de acerto, ficou num chocho segundo lugar. De fato, sofreu uma derrota para quem só faz campanha em tom de triunfalismo bombástico. Mas Iowa é talvez o Estado menos favorável a uma candidatura do nova-iorquino e pouco religioso Trump. A grande surpresa da noite foi o bom desempenho, em terceiro lugar, do senador Marco Rubio, da Flórida.

Entre os democratas, o empate virtual entre a ex-Secretária de Estado Hillary Clinton e o senador por Vermont Bernie Sanders foi visto como um copo meio cheio por ambos, que não usaram a palavra “vitória” em seus discursos para correligionários no fim da noite.

Perto das 5 horas da manhã de São Paulo, ainda não havia um resultado definitivo e a vantagem de Hillary Clinton era de apenas 0.2%. O senador Sanders disse que, diante do empate vitual, os dois candidatos deveriam dividir 43 delegados do Estado. Uma derrota de Clinton em Iowa, onde foi humilhada pelo pouco conhecido Barack Obama, em 2008, e ficou em terceiro lugar, teria sido uma desmoralização para sua campanha mas nem de longe a tornaria inviável como candidata. Hillary Clinton ocupou todos os municípios de Iowa desde abril passado com uma máquina partidária bem financiada e disposta a não repetir o fiasco de 2008.

O autodenominado social democrata Bernie Sanders chegou no Estado, como ele lembrou, no discurso desta madrugada, desconhecido, sem dinheiro e sem suporte partidário. Empatar com Hillary Clinton, foi para ele, um sinal de que “começamos uma revolução.” Habitualmente gentil e avesso a ataques diretos, Sanders juntou-se ao conservador Ted Cruz no ataque ao establishment e à mídia que o critica como um esquerdista. Ele disse que não quer o dinheiro dos bilionários. Realmente não precisa dele – a campanha de Sanders arrecadou US $ 20 milhões de dólares só no mês de janeiro com doações médias de US $ 27.

Hillary Clinton evitou atacar o adversário que começou azarão, mas fez questão de se declarar uma progressista que faz as coisas acontecerem, numa referência velada a Sanders, cujas propostas em educação, saúde e impostos dificilmente passariam pela muralha republicana atualmente no controle das duas casas do Congresso.

O senador Marco Rubio, cuja juventude e falta de experiência legislativa foram bastante exploradas por adversários em 2015, sai de Iowa como a alternativa favorita do tão criticado establishment. O conservadorismo extremista de Ted Cruz, o desempenho fraquíssimo do candidato querido de grandes doadores, Jeb Bush, devem jogar mais dezenas de milhões de dólares na campanha de Marco Rubio. Sua juventude e o fato de ser filho de cubanos serão explorados contra Hillary Clinton, embora ela proponha políticas mais favoráveis aos 11 milhões de latinos sem documentos nos Estados Unidos.

O cáucus de Iowa, embora limitado em número de delegados, é um primeiro teste importante e serve para ceifar candidaturas sem chances. O democrata Martin O’Malley renunciou à sua candidatura ainda durante a apuração, sem chegar a um por cento de votos. O ex-governador republicano do Arkansas, Mike Huckabee , também saiu da disputa. A primária eleitoral de New Hampshire, no próximo dia 8, deve fazer encolher mais o campo republicano que ainda tem 11 candidatos.

Mas, entre os democratas, a corrida apenas esquentou. Hillary Clinton continua sendo a preferida do partido e de grandes doadores. Ela ainda é visada no escândalo do uso de um servidor privado para trocar e-mails quando Secretária de Estado. Salvo um indiciamento improvável, esta indicação é de Hillary Clinton para perder, embora o sucesso da mensagem social-democrata de Bernie Sanders vá forçar um debate mais vigoroso sobre o período pós-Obama

Mas, numa eleição em que o xenófobo Donald Trump continua entre os favoritos, disputando com dois filhos de cubanos, em que o irmão e filho de ex-presidentes torra US $ 100 milhões para conquistar apenas um delegado, fazer previsões é um esporte para quem ainda aposta no tal do establishment.