UM BONDE CHAMADO ESTRELA

Lúcia Guimarães

08 de janeiro de 2013 | 14h36

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(Foto Divulgação)

 

(texto reproduzido da edição impressa do C2 do Estado de S.Paulo, 8 de janeiro 2013)
A nova produção de Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams, estréia na Broadway no próximo dia 17. Mas, desde dezembro, quando começaram as prévias no Richard Rodgers Theater, a bilheteria semanal já tem superado a das três remontagens anteriores. O nome na marquise do teatro ajuda a explicar: Scarlett Johansson vive Maggie, a gata.
Quem pagar até US $175 para admirar a atriz de 28 anos famosa por suas curvas e papéis de ingênua sexy, não pode reclamar porque a estrela alertou: “A sexualidade é uma parte tão pouco importante da história”, disse Johansson, numa entrevista recente.
No tempo em que os grandes estúdios de Hollywood mantinham atores sob longos contratos, a imprensa de entretenimento usava a expressão abertamente:
“MGM compra Gata em Teto de Zinco Quente como veículo a ser estrelado por Grace Kelly”, anunciou o New York Times em julho de 1955.
O “veículo para a estrela” foi inventado pela própria Metro Goldwyn Mayer na década de 30 e, quando a Gata causou sensação ao estrear, naquele mesmo ano, houve uma disputa acirrada pelos direitos da peça que Tennesse Williams considerava sua melhor obra. Mas o veículo da MGM haveria de ser pilotado por outras estrelas. James Dean, escolhido para viver o marido homossexual e alcoólatra de Maggie, morreu num desastre de automóvel, deixando a vaga para o então promissor Paul Newman. Grace Kelly abandonou Hollywood pelo principado de Mônaco e coube a Elizabeth Taylor ronronar com um brilho que lhe valeu uma indicação merecida para o Oscar.
Embora a era dos estúdios esteja, há muito, extinta, a Broadway tem sido colonizada por emissários da Costa Oeste americana. Filmes se transformam em peças e musicais, produtores de Hollywood conseguem financiamento fora do alcance do tradicional establishment do teatro nova-iorquino e estrelas de Hollywood fazem de produções de teatro seus veículos, às vezes, como contrapeso para filmes medíocres.
Nesta temporada, por exemplo, Al Pacino comanda uma lucrativa e bem fraca remontagem de Glengarry Glen Ross, de David Mamet, uma produção que passou semanas intermináveis em prévias, para evitar que críticos atrapalhassem a bilheteria.
A Gata de Scarlett Johansson terá passado 4 semanas em prévias lotadas e deve ser imunizada contra o cada vez menos potente vírus da critica teatral.
Esta produção é assinada por Rob Ashford, um ex-dançarino que passou a carreira como coreógrafo, dirigiu musicais e se graduou para a dramaturgia. Ashford tem a distinção de ser premiado dos dois lados do Atlântico. Dirigiu a remontagem de outro clássico de Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo, em Londres, com Rachel Weiz vivendo Stella. Mas o DNA do diretor, que também assina a atual produção do musical Shrek, em Londres e a coreografia de Evita, na Broadway está em evidência na sede da maior plantação de algodão no Delta do Mississipi, cenário da trama de Gata em Teto de Zinco Quente. As cinco crianças que Maggie desdenha na longa diatribe do primeiro ato, irrompem num número musical no segundo ato, para festejar os 65 anos de Big Daddy Pollitt, o voraz patriarca que está morrendo de câncer. O fantasma de Skipper, o amigo e objeto do desejo erótico que Brick rejeitou, Maggie seduziu e acabou por se suicidar, ronda o cenário em carne e osso e até atende o telefone.
Benjamin Walker, visto recentemente em Abraão Lincoln: Caçador de Vampiros é o torturado Brick, o ex-jogador de futebol americano que se anestesia com álcool, sente repulsa pelo corpo de Maggie e se recusa a produzir o herdeiro tão crucial para Maggie não voltar à pobreza abjeta.
Em suas Memórias, Tennessee Williams se mostra inconformado com as mudanças que Elia Kazan exigiu no terceiro ato de Gata, na montagem original. Kazan queria uma Maggie mais virtuosa e menos calculista. Exigiu que a volta no terceiro ato, do moribundo Big Daddy , o personagem que Williams considerava o personagem cuja eloquência crua era sua melhor criação. A tarefa inglória de nos fazer esquecer do poderoso Burl Ives, o Big Daddy original da Broadway e do cinema, é confiada ao irlandês Ciarán Hinds. A versão atual da peça incorpora mudanças de texto que o próprio autor recomendou numa produção dos anos 70.
Mas o trauma da experiência com Kazan ficou na memória do dramaturgo. Ele conta, nas Memórias, ter sofrido um bloqueio de escritor após a estréia, que passou a combater com doses regulares de barbitúricos e álcool. “Não culpo Kazan de forma alguma,” escreve Williams, nem quando, mais tarde, a bordo de uma limusine de aluguel, o diretor perguntou, à queima roupa: “Tennessee, quanto tempo você acha que ainda vai viver?”
Esta franqueza brutal permeia os diálogos de Gata em Teto de Zinco Quente. Como em Um Bonde Chamado Desejo, o calor úmidodo Sul americano escorre dos corpos e das palavras. A nova Maggie-Scarlett é uma gata mais calculista do que Elia Kazan teria aprovado. Mas a sensualidade sulista desta Maggie não chega a ameaçar a indiferença de Brick.

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