Conciliação é a palavra chave para Humala, diz analista

Estadão

06 de junho de 2011 | 21h34

Keiko cumprimenta Humala após reconhecer derrota. Paolo Aguilar/Efe

O nacionalista Ollanta Humala será o novo presidente do Peru. A vitória de domingo sobre a candidata conservadora, Keiko Fujimori, foi apertada.  A vantagem dele foi de apenas 1,5 ponto porcentual. São 440 mil votos. Em uma eleição bastante polarizada, na qual candidatos do centro do espectro político acabaram ficando de fora do segundo turno, o vencedor foi obrigado a moderar seu discurso para superar uma adversária forte. O grande desafio do presidente eleito, agora, é fazer as concessões necessárias a seus novos aliados para conseguir governar, sem perder de vista seu programa de distribuição de renda a longo prazo.

A moderação do discurso e o forte componente antifujimorista de parte da sociedade peruana contribuíram para a vitória de Humala. Ainda no primeiro turno, ele se distanciou da “esquerda bolivariana”, personificada no presidente venezuelano, Hugo Chávez. Com a participação de marqueteiros brasileiros ligados ao PT, o nacionalista buscou emular o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sua versão “Lulinha paz e amor”, da campanha de 2002. O candidato também contou no segundo turno com “fiadores” de seu discurso moderado: o ex-presidente Alejandro Toledo e o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa. Ele ainda trocou o discurso nacionalista pelo democrático na reta final da campanha, para diferenciar-se do passado de violações de Alberto Fujimori, pai de sua rival.

Além disso, o fato de enfrentar uma adversária tão polarizadora quanto Keiko favoreceu Humala. Devido à rejeição de Fujimori, na prisão por crimes contra os direitos humanos e corrupção, os indecisos acabaram optando pelo esquerdista. Em uma comparação com o universo daqui do Brasil, é um cenário similar ao da eleição de Marta Suplicy, para a prefeitura de SP, em 2000. Na ocasião, o candidato do centro, o então vice-governador Geraldo Alckmin (PSDB), acabou ficando de fora do segundo turno. Contra Paulo  Maluf no segundo turno, que tinha uma rejeição forte, o PT conseguiu o apoio dos tucanos e venceu a eleição.

O cientista político peruano Eduardo Toche, do Centro de Estudos de Promoção do Desenvolvimento (Desco), de Lima, conversou com o Nuestra America e dissecou os fatores que levaram à vitória de Humala. Segundo ele, a impossibilidade da campanha de Keiko de se distanciar da figura de Alberto Fujimori e e as concessões do nacionalista rumo ao centro foram fundamentais para sua vitória. O grande desafio do novo presidente, diz Toche, é reverter o clima extremamente polarizado da campanha e forjar uma conciliação social e política do Peru. Leia a seguir trechos da entrevista:

Qual deve ser o papel de Humala durante a transição?

Humala foi obrigado hoje  a falar em conciliação. Ele precisa chegar à posse em 28 de julho com um ambiente menos polarizado. A pergunta é até onde ele pode negociar. As pressões são muito fortes e já há exigências para que o  gabinete ministerial seja independente. Ele precisará de  equilíbrio para reforçar os laços com os novos aliados e ao mesmo tempo evitar que as expectativas de seus eleitores não sejam frustradas. A negociação não deve ser apenas política, mas também, social. Ele tem de se sentar com empresarios para convencê-los de sua proposta de crescimento com redução da desigualdade.

O que levou Keiko à derrota?

A impossibilidade de ela se dissociar da figura do pai. Foi uma associação automática. Seus assessores nunca puderam se distanciar dele, porque a figura de Fujimori era necessária na campanha. Por exemplo, Keiko sempre lembrava da vitória do governo do pai contra o terrorismo e dizia que ela seria implacável contra  o crime. Além disso, a maioria dos assessores dela eram ligados a Fujimori.  Todos sofreram denúncias de abusos  de direitos humanos ou corrupção, ou, no mínimo, eram figuras que saíram desprestigiadas do governo em 2000. O terceiro fator foi uma série de erros de cálculo políticos. Um porta-voz da candidata foi criticado por dizer que no governo de Alberto Fujimori havia se matado menos gente que nos anos 1980. Seu candidato a vice que disse que não constava que Vlademiro Montesinos havia violado direitos humanos. Esses erros alimentaram os laços com o governo do pai.

A reação negativa dos mercados à vitória de Humala já era esperada?

Sim. Ao longo da campanha, sempre que Humala subia nas pesquisas, a bolsa caía e o dólar disparava.  É a forma dos grupos que controlam a economia mostrarem a Humala o poder que têm, para que  negociem nos termos deles. Isso é esperado e deve continuar acontecendo. Por isso insisto que Humala deve optar por uma conciliação social. Ele tem de persuadir os empresários a investirem no desenvolvimento do país.

O que mostra o mapa eleitoral da vitória de Humala?

O mapa eleitoral foi muito semelhante a 2006.  A diferença foi a votação que Humala obteve em Lima. Ainda que ele tenha perdido, foi maior que a de 2006. Os lugares onde o crescimento dos últimos anos representou ganhos para a população, comoa capital,votaram em Keiko. Lugares onde há enormes dificuldades para distribuir renda –  Amazônia e o Sul andino – optaram por Humala.

O partido de Humala tem  47 dos 130 assentos no Parlamento. Será um Congresso favorável?
Os assessores de Humala estão negociando  uma maioria, principalmente com o partido de Toledo (Peru Posible, com 21 cadeiras).  Não se sabe se conseguirão isso, mas podem criar um bloco governista que lhes permitirá uma certa tranquilidade.

Humala fará mudanças profundas em relação a Alan Garcia e Toledo?

Não, não serão mudanças profundas. Eles ( o partido de Humala)  estão muito conscientes da força limitada que têm.  Humala quer aumentar o investimento público em programas sociais e em serviços públicos. Para isso, precisa de uma reforma tributária, principalmente no setor mineiro.

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