Ex-ministra tenta ser a primeira mulher presidente do México

Estadão

13 de fevereiro de 2012 | 15h04

O Partido Ação Nacional (PAN) conseguiu no ano 2000 pôr fim ao domínio de 71 anos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) na política mexicana. Após manter-se no poder com a eleição de Felipe Calderón, em 2006, a legenda conservadora tem um novo desafio: eleger em julho, pela primeira vez na história do país, uma mulher para a presidência. A escolhida é a ex-ministra e deputada Josefina Vázquez Mota, de 51 anos.

Sua candidatura, por si só, também é inédita. Nunca um partido do establishment mexicano apostou em uma mulher para concorrer à presidência. Josefina alcançou esse feito no dia 5, ao vencer as prévias do PAN com 55% dos votos. Ela superou outros dois pré-candidatos, entre eles Ernesto Cordero, favorito de Calderón.

“Ela é uma pessoa já conhecida no México”, diz o professor de Ciência Política Carlos Lugo, da Universidade Ibero-americana. “Além disso, Conhece bem o interior do país e é uma líder muito carismática.”

Se quiser entrar no clube de líderes femininas latino americanas – que conta atualmente com as presidentes Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, da Argentina, e Laura Chinchila, da Costa Rica -, terá de superar a ampla vantagem nas pesquisas do candidato priista, Enrique Peña Nieto, nas pesquisas de opinião. De acordo com a média dos últimos levantamentos, Nieto tem 53% da preferência do eleitor. Josefina conta com 26% do apoio popular e o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático, com 21%. A campanha começa oficialmente em março.

Josefina construiu sua carreira na iniciativa privada antes de ingressar na política. Foi consultora de entidades patronais como a Confederação de Câmaras de Comércio Turismo e a Confederação Patronal do México. Também foi colunista dos jornais Novedades, El Financiero e El Economista.

Em 2000, eleita deputada federal, aceitou a indicação para comandar a secretaria (ministério) de Desenvolvimento Social de Vicente Fox. Em 2006, com a vitória apertada de Calderón sobre López Obrador, foi nomeada secretária da Educação, cargo que exerceu até 2009.

“Ela teve uma gestão muito boa à frente do Desenvolvimento Social”, afirma Lugo. “Na Educação, no entanto, distanciou-se de Calderón.”

Tráfico. Josefina tem ao menos três grandes obstáculos para alavancar sua candidatura: impor-se na questão do narcotráfico, superar o machismo da classe política mexicana e convencer o presidente Felipe Calderón, que nas prévias do PAN apoiou outro candidato, a aderir plenamente a sua campanha.

“Ela tem muito a aprender ainda sobre o narcotráfico”, diz Lugo. “Precisa descobrir onde estão os principais enclaves, quais as políticas públicas para enfrentar a onda de assassinatos e violência no México.”

Na semana passada, após ter sido confirmada como candidata do PAN nas prévias do partido, Josefina apressou-se em prometer rigor contra o narcotráfico. “Farei jus ao papel de comandante-chefe das Forças Armadas”, disse ao jornal El Universal. “Colocarei os criminosos na linha.” A violência relacionada ao narcotráfico já deixou mais de 50 mil mortos no país desde 2006.

Espera-se que o governo consiga “blindar” as campanhas da influência financeira do narcotráfico. “Tomara que eles consigam, mas é difícil ter certeza de que isso não vá acontecer, porque os partidos apresentam recursos não contabilizados cuja a origem não é possível identificar”, acrescenta o analista. “Será uma batalha para a Justiça eleitoral.”

Outro desafio de Josefina será reaproximar-se de Felipe Calderón, de quem foi ministra da Educação entre 2006 e 2009. Após uma crise entre o governo e o sindicato dos professores, Josefina deixou o cargo e se distanciou de Calderón. Durante as primárias, o presidente apoiou o ex-ministro de Finanças Ernesto Cordero, que acabou derrotado.

“Calderón terá de se curvar à vontade do PAN e apoiá-la”, afirma o analista da Ibero-americana. “Mas é muito difícil que o apoio dele faça muita diferença na campanha.”

O último desafio, e sob certos aspectos o mais difícil para Josefina, é superar o machismo e o conservadorismo dos políticos mexicanos. Josefina representa uma nova geração, diferente de seus dois adversários, ligados à velha guarda da classe política. Mesmo sendo ideologicamente conservadora, pode empolgar as mulheres da classe média urbana.

“As mulheres veem com bons olhos a chance de ter uma presidente mulher. Mas os políticos mexicanos estão hesitantes frente a uma líder política como ela”, conclui Lugo. “Mas isso vai evoluir e deve mudar até julho.”

* Matérias publicadas em O Estado de S. Paulo em 12/02/2012

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