Oposição da Meia-Lua perde força na Bolívia

Estadão

05 de dezembro de 2011 | 20h14

Três anos depois da crise que opôs o presidente da Bolívia, Evo Morales, aos governadores da região da Meia-Lua – a mais rica do país, formada pelos departamentos (Estados) de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija -, a oposição boliviana tem uma nova face. Os líderes autonomistas do leste boliviano, dizem analistas, perderam espaço para ex-aliados do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo.

 

Um exemplo desse novo protagonismo foi a campanha pelo voto nulo nas eleições para magistrados da Suprema Corte, em outubro. O ex-prefeito de La Paz Juan del Granado, antigo partidário de Evo, que rompeu com o presidente em 2009, comandou os pedidos de boicote à votação. Os votos nulos – segundo analistas, uma maneira da população mostrar seu descontentamento com o governo – superaram os válidos. A contagem final mostrou que 60% dos eleitores anularam o voto em protesto.

Outro fator que evidenciou a exclusão cada vez maior da oposição da Meia-Lua do papel de antagonismo a Evo foi a crise envolvendo a construção de uma estrada financiada pelo Brasil no Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis). A repressão aos indígenas que marchavam da reserva a La Paz prejudicou a imagem de Evo, cuja carreira política foi construída em torno dos direitos dos povos nativos da Bolívia. Setores da comunidade indígena, que constituem 55% da população, romperam com o governo.

“A oposição autonomista da Meia-Lua perdeu espaço em razão de uma série de erros políticos e de uma perseguição promovida pelo governo”, diz a cientista política María Teresa Zegada, da Universidade Maior de San Simón. “Além disso, houve uma ruptura na base social de apoio a Evo, e o discurso autonomista não contempla as necessidades dessa base.”

“Hoje a maior parte da oposição boliviana vem de dissidentes do MAS”, afirma o presidente do Diálogo Inter-Americano, Michael Shifter. “Os políticos tradicionais e a oposição da Meia-Lua já não desempenham um papel importante como antes.”

Ainda de acordo com analistas, as raízes do processo de esvaziamento da oposição da Meia-Lua estão nas bandeiras originais do movimento. Em 2008, os departamentos de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija organizaram referendos para obter mais autonomia do governo central. Após a votação, a oposição dos governadores da região aos impostos sobre gás e petróleo cobrados por La Paz provocou uma série de disputas no país.

Evo acabou cedendo e incluiu a autonomia na Constituição de 2009. “Com isso, a oposição da Meia-Lua acabou perdendo sua principal bandeira política”, explica María Teresa. “Além disso, a defesa que eles faziam da institucionalidade democrática perdeu força quando eles tentaram romper com o governo central.”

Sem discurso, os autonomistas perderam também seus líderes. Nas eleições de 2010, dos nove departamentos, o MAS elegeu governadores nas cinco províncias do altiplano (Cochabamba, La Paz, Chuquisaca, Oruro e Potosí) e em Pando. O governador de Tarija, Mario Cossío, buscou asilo no Paraguai após ter sido destituído do cargo, acusado de corrupção no mesmo ano. “A oposição da Meia-Lua sobrevive apenas em Beni e Santa Cruz”, constata a analista boliviana.

Dos líderes da Meia-Lua, o ex-governador de Pando Leopoldo Fernández, está preso desde 2008, acusado de ter ordenado o massacre de 11 camponeses partidários de Evo. O ex-candidato a presidente Manfred Reyes Villa está autoexilado nos EUA.

O único político da região mais rica da Bolívia que ainda desfruta de prestígio é o governador de Santa Cruz, Rubén Costas. Ao lado de Granado e do ex-candidato à presidência Samuel Doria Medina, ele liderou a campanha pelo voto nulo na eleição dos magistrados de outubro.

Esses três nomes, no entanto, encontram dificuldade para afinar um discurso comum para desafiar Evo, que além de controlar o Executivo, tem maioria de dois terços na Assembleia. Granado, com um perfil de centro-esquerda, construiu sua carreira com base na defesa dos direitos humanos. Os outros dois têm mais ligações com a centro-direita boliviana. “Medina tem poucos votos e Ruben Costas não tem apoio fora da província. A oposição hoje ocupa espaços de decisão minoritários. É fragmentada e carece de um discurso aglutinador”, resume María Teresa.

 

* publicado no Estadão em 4/12/11

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