5 Razões Para … Exaltar a queda de Raqqa
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5 Razões Para … Exaltar a queda de Raqqa

Redação Internacional

18 Outubro 2017 | 05h00

1. Era a “capital do terror”
Raqqa, nas margens do Rio Eufrates e com uma população de cerca de 200 mil pessoas, foi a primeira cidade a cair nas mãos do Estado Islâmico (EI). Soldados rebeldes do Exército sírio e combatentes da Al-Qaeda capturaram a cidade em 2013, trazendo com eles os jihadistas sunitas do EI da Síria e do Iraque, mais conhecidos na época como Isis.

Os jihadistas, por sua vez, expulsaram da cidade a Al-Qaeda e os combatentes da oposição moderada, em janeiro de 2014, e começaram a transformar Raqqa em capital política de fato do seu “califado”, que logo seria declarado. O EI reduziu a cinzas a principal mesquita xiita de Raqqa e converteu igrejas em centros islâmicos. Os cristãos e outras minorias foram perseguidos; a maioria fugiu da cidade e o restante foi obrigado a pagar um imposto especial. Mas aqueles que conseguiram ficar viviam em relativa segurança, pois a maior parte da luta contra a Síria foi travada nas cidades ocidentais do país.

Combatentes das FDS celebram retomada de Raqqa. Foto: Erik De Castro/Reuters

2.Centro de planejamento do Terror.
O autoproclamado califa do EI e chefe do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi, convocou médicos e engenheiros para que viajassem a Raqqa para ajudar a construir seu “califado” e viabilizar o sonho de uma jihad global. Combatentes estrangeiros aglomeraram-se na cidade, vindos de todo o mundo. As escolas foram fechadas e as crianças enviadas a mesquitas para doutrinação na jihad e a acampamentos para treinamento militar.

Jornalistas estrangeiros e trabalhadores humanitários foram mantidos nas prisões da cidade e decapitados em vídeos que levaram aos militantes do EI toda a atenção global pela qual tanto ansiavam. Foram traçados até Raqqa o planejamento de alguns dos principais ataques na Europa nos últimos anos, incluindo os de Paris de 2015, que mataram 130, e os ataques suicidas de 2016 no aeroporto de Bruxelas e no metrô, que mataram 32.

3.Vitória a um custo devastador.
Em junho de 2016, um grupo liderado por curdos, chamado Forças Democráticas Sírias (FDS), lançou operações para capturar a cidade. Com o apoio de ataques aéreos dos EUA e artilharia, as FDS levaram quatro meses de luta de rua para recuperar Raqqa. À medida que a batalha se arrastava, a coalizão liderada pelos EUA intensificou os bombardeios. De acordo com a Airwars, grupo que monitora o custo humano das campanhas aéreas americanas e russas na Síria e no Iraque, a coalizão deixou cair mais obuses e bombas em Raqqa em agosto do que em todo o Afeganistão no mesmo mês. Em setembro, o grupo de monitoramento Médicos pelos Direitos Humanos, com sede em Nova York, disse que havia apenas um hospital funcionando na cidade, que tratava ferimentos só com sal e água. Os socorristas deixaram de tentar recuperar pessoas soterradas pelos ataques aéreos, com medo de serem atingidos.

A Airwars e o Observatório Sírio para Direitos Humanos, com sede na Grã-Bretanha, disseram que mais de mil civis foram mortos apenas por ataques aéreos da coalizão, desde que as forças das FDS entraram pela primeira vez na cidade, em junho. O Pentágono disse que cerca de 1,1 mil combatentes das FDS foram mortos e quase 4 mil feridos em ofensivas em Raqqa e na cidade vizinha de Deir el-Zour. Hoje, Raqqa está em ruínas.

4.Tensões Persistentes.
Agora que as FDS têm Raqqa, a dúvida é o que fazer com o grupo. As FDS indicaram uma administração civil de moradores locais para a reconstrução da cidade, mas há questões mais importantes. As Forças Democráticas Sírias são uma força multiétnica, mas sua liderança curda abriga ambições de controle autônomo sobre uma região curda na Síria que agora inclui Raqqa, de maioria árabe.

O Partido da União Democrata Curda do governo (PYD), sem dúvida, com um olho no referendo da independência curda no Iraque no dia 25, entende que talvez jamais terá uma oportunidade melhor para conseguir a autonomia. Os árabes sírios em sua maioria preferem um país unificado, e a dominação curda sobre Raqqa ameaça gerar ressentimentos. A real preocupação é que possa ocorrer uma revolta entre a população árabe sunita de Raqqa contra os curdos.

5. O que vem a seguir: caça ao EI no leste da Síria.
A guerra contra o EI já se deslocou para a província oriental de Deir el-Zour, na Síria, que detém grande parte dos recursos em petróleo e gás do país, além de uma valiosa travessia com o Iraque. Os jihadistas ainda mantêm controle sobre cerca de 130 quilômetros do Vale do Eufrates, dentro da Síria, incluindo fortalezas fundamentais.

Ao contrário de Raqqa, há duas partes perseguindo o EI em Deir el-Zour. Forças do governo sírio com o apoio do Irã e da Rússia estão ganhando terreno no sudeste do rio, enquanto as FDS, apoiadas pelos EUA, avançam no noroeste. Os riscos são altos e os dois lados trocaram acusações quanto a disparos um contra o outro. Os EUA não querem que o Irã garanta um corredor pelo Iraque e Síria, até o Mediterrâneo. O EI está lutando uma batalha perdida, e seus dias no norte e leste da Síria estão contados, embora o grupo provavelmente venha a sobreviver por algum tempo como insurgente. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO