A geração Abdulmutallab
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A geração Abdulmutallab

Luiz Moncau

21 de janeiro de 2010 | 06h53

Abdulmutallab: terror islâmico inspira jovens africanos (Foto: Foreign Policy)

Abdulmutallab: terror islâmico inspira jovens africanos (Foto: Foreign Policy)

O recente caso do estudante nigeriano Umar Faroux Abdulmutallab – preso ao tentar explodir um avião da Northwest Airlines em Detroit, no Natal -, expôs o crescente envolvimento de jovens africanos com o terror islâmico.  Abdulmutallab, porém, chamou a atenção por não fazer parte do perfil de jovem pobre e desesperado normalmente  associado à violência no continente, conforme relata uma ampla reportagem de George Ayteey, da revista Foreign Policy

Abdulmutallab é filho de um ex-ministro e rico banqueiro nigeriano. Além disso, nem o Islã e tampouco o cristianiasmo são religiões genuinamente africanas – e a ideia de estar disposto a morrer em nome de uma fé “estrangeira”  é considerada absurda por boa parte dos africanos. De quebra, os EUA  nunca atuaram como potência colonial na África – o país alvo do atentado fracassado de Abdulmutallab, por sinal, é um destino sonhado de muitos emigrantes nigerianos.

Há outros motivos para especular sobre a radicalização dos jovens africanos. Cerca de 60% da população do continente têm menos de 30 anos. Nas últimas décadas, esses jovens tornaram-se sem esperança, em meio à penúria econômica em que vivem. Com pouca instrução e sem emprego, eles têm poucos modelos de estatura moral a se espelhar. O sistema de valores africanos, por sinal, entou em colapso – disciplina, trabalho duro e empreendedorismo não asseguram mais riqueza e sucesso.

O que importa é ter contatos políticos. Os homens mais ricos da África são, em geral, ministros ou presidentes. Dos 209 chefes de Estado africanos desde 1960, não mais que 15 podem ser considerados honestos ou íntegros. Como a África pode conclamar uma luta contra o terror se o próprio líder da União Africana (o líbio Muamar Kadafi) é um confesso apoiador do terrorismo?

Desencantados com sua sociedade, os jovens africanos passaram a ficar suscetíveis às ideias radicais e ao extremismo religioso – não apenas de islâmicos da Nigéria e da Somália, mas também de seitas fundamentalistas cristãs de Uganda e Quênia. A solução, para muitos, é a emigração ilegal para a Europa ou a adesão ao crime organizado, à prostituição ou às drogas em seus países.

Na maioria dos países africanos, o governo deixou de existir ou funcionar, substituídos por Estados-fantasma governados por bandidos ou gangues travestidos de líderes políticos que se perpetuam no poder. Em países como Chade, Eritreia, Etiópia, Uganda, Sudão e Zimbábue, o governo não atende às mínimas necessidades da população.

São justamente esses fatores – liderança esclerosadas e governos fracassados e sem estatura moral-, e não a pobreza, que levam os jovens africanos a buscar uma saída pela forma mais letal e perigosa: o extremismo, seja ele religioso ou político. (Foreign Policy)

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