A relação tumultuada entre Escócia e Reino Unido
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A relação tumultuada entre Escócia e Reino Unido

Mais de 300 anos de união entre os dois países passarão por um teste com a possível aprovação da demanda de um novo referendo de separação

Redação Internacional

28 de março de 2017 | 12h06

A Escócia, uma das quatro nações que integram o Reino Unido, manteve uma intensa relação de amor e ódio com sua grande e dominante vizinha do sul, Inglaterra. O país tem um terço do território do Reino Unido – também integrado por País de Gales e Irlanda do Norte – e 8,4% de sua população de 65 milhões de habitantes.

Os mais de 300 anos de união entre Escócia e Inglaterra – desde o Tratado da União de 1707 – voltarão a passar por outro teste com a provável aprovação, nesta terça-feira, 28, no Parlamento escocês, da demanda de um novo referendo de secessão. No anterior, realizado em setembro de 2014, a permanência no Reino Unido venceu por 55% a 45%.

Primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May (dir.), se reúne com a premiê da Escócia, Nicola Sturgeon em Glasgow (Foto: REUTERS/Russell Cheyne)

Primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May (dir.), se reúne com a premiê da Escócia, Nicola Sturgeon em Glasgow (Foto: REUTERS/Russell Cheyne)

Origens

No ano 122 a.C., os romanos iniciaram a construção da Muralha de Adriano, da qual ainda sobrevivem partes, para delimitar a fronteira norte do Império romano que dividia de certa forma ingleses e escoceses. Ameaçados pela dominação escandinava, os pictos (antigos habitantes da Escócia) e os escoceses se uniram sob Kenneth MacAlpin, considerado o primeiro rei dos escoceses, que morreu em 858.

Mas quando a sucessão de sua dinastia se converteu em alvo de disputa, o então rei da Inglaterra, Edward I, foi convidado para mediar, e acabou reivindicando a coroa e invadindo a Escócia em 1296, sendo batizado de “Martelo dos escoceses”.

As guerras de independência escocesas se prolongaram até 1357, embora o rei Robert de Bruce tenha restabelecido de fato a independência com sua vitória sobre as forças inglesas em Bannockburn em 1314.

União das coroas

O Tratado de Paz Perpétua de 1502, assinado pelo rei James IV da Escócia e Henrique VII da Inglaterra, buscava colocar fim às periódicas guerras anglo-escocesas, e incluía o casamento entre James e a filha de Henrique, Margaret. Desta forma foram estabelecidas as bases da União das coroas de 1603, quando o bisneto do casal, James VI da Escócia, herdou a coroa inglesa da rainha Elizabeth I.

Os dois países permaneceram separados por mais de um século, até que a Escócia definhou, praticamente por sua tentativa desastrosa de criar seu próprio império estabelecendo uma colônia no Panamá. Em 1707 foi assinado o Tratado da União entre Escócia e Inglaterra, que já incluía o País de Gales, e levou ao nascimento da Grã-Bretanha.

Diferenças

A Escócia de hoje em dia segue reivindicando suas raízes célticas e o inglês convive com o escocês e o gaélico escocês. O país também mantém sua bandeira – a Cruz de Santo André, evangelizador e padroeiro da Escócia – e seu próprio hino. Cada região do Reino Unido, incluindo a Escócia, tem suas próprias ligas esportivas e seleções nacionais, uma exceção internacional.

Embora a Escócia utilize a libra, três bancos escoceses conservaram o privilégio de emitir moeda, e as notas escocesas são diferentes das impressas no sul. Assim como a Irlanda do Norte, a Escócia tem seu próprio sistema judicial. Fartos da hegemonia de Westminster, os nacionalistas escoceses fundaram em 1934 o Partido Nacional Escocês (SNP), que hoje governa a região.

Em 1998, a Escócia recuperou um status semiautônomo e seu Parlamento, mas as competências em defesa e política internacional continuam sendo do governo central. No dia 18 de setembro de 2014, 4 milhões de escoceses se pronunciaram em um referendo sobre a independência, que foi rejeitado por 55% a 45%.

Já no referendo do Brexit, realizado no dia 23 de junho de 2016 – embora no conjunto de o Reino Unido ter vencido a saída da União Europeia -, os escoceses votaram majoritariamente a favor da permanência, abrindo caminho a uma nova demanda para se pronunciar sobre a secessão. / AFP