ANÁLISE: Dois Estados: para dois povos ou para um só?
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ANÁLISE: Dois Estados: para dois povos ou para um só?

Luciana Fadon Vicente

29 Setembro 2011 | 11h28

*Thomas Friedman é jornalista

Um de cada vez, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e o presidente americano, Barack Obama, discursaram na ONU na semana passada. É difícil dizer qual dos três foi o pior. A fala de Netanyahu foi como uma palestra motivacional para o Comitê Central do Likud. A fala de Abbas mais pareceu um pronunciamento em reunião da Liga Árabe. O discurso de Obama assemelhou-se a um apelo ao eleitorado judaico da Flórida. As intenções do presidente americano eram boas, mas a política doméstica exigiu que ele sussurrasse ao falar de temas a respeito dos quais ele já ousou dizer verdades desagradáveis a ambos os lados.
Toda esta novela foi apenas outro lembrete do quanto os lados ainda suspeitam que o outro esteja buscando, na verdade, dois Estados para um só povo, e não dois Estados para dois povos.

O jornal israelense Haaretz resumiu impecavelmente as apresentações de Abbas e Netanyahu: “Essas duas narrativas repletas de queixas e exigências dão impressão de que o conflito palestino-israelense tinha embarcado numa máquina do tempo e voltado ao fim do século passado, apagando décadas de diálogo – para a alegria dos extremistas de ambos os lados. A meta não parece mais ser a paz, mas o mero contato direto entre os dois lados, e mesmo esse contato está cada vez mais se perdendo na distância”.

Estamos mesmo num “Novo Oriente Médio”, mas ele não é como esperávamos. Ao se esvaziar de diplomacia o campo atual, com tantos personagens instáveis circulando por aí – como colonos israelenses extremistas dados a pichar “Maomé é um porco” nas paredes de prédios muçulmanos na Cisjordânia e extremistas palestinos, membros de grupos como a Jihad Islâmica, dados a disparar contra civis israelenses ou a lançar granadas de morteiros de Gaza contra cidades israelenses -, se está, na verdade, procurando encrenca.

Se hoje ocorrerem embates entre israelenses e palestinos, não existe mais um Hosni Mubarak, ex-presidente do Egito, para abafar as chamas. O que temos agora é um primeiro-ministro turco – Recep Tayyip Erdogan – pronto para avivá-las e soprá-las da direção de Israel. Não é exagero dizer que, caso ocorram embates sérios entre israelenses e palestinos, tanto o tratado de paz entre Egito e Israel quanto o tratado entre Jordânia e Israel podem se ver prejudicados. E, se a violência palestina se espalhar pela Cisjordânia, Abbas pode simplesmente dizer aos israelenses que vai extinguir a Autoridade Palestina, recusando o papel de policial de Israel na Cisjordânia. Seria o último prego no caixão dos Acordos de Oslo.

Eis aquilo que um governo israelense visionário diria a si mesmo: “Se tudo isso desabar, temos muito mais a perder do que os palestinos têm. Assim, vamos oferecer-lhes um voto de confiança. Abbas diz que não retornará às negociações de paz na ausência de um congelamento total na construção de assentamentos. Nós achamos que isso é bobagem. Demos a ele dez meses de congelamento parcial nas construções, e ele nada fez com esse tempo. Mas, sabe de uma coisa? Há tanto em jogo aqui que vale a pena dar outra chance. Vamos oferecer seis meses de congelamento total na construção de assentamentos. O que são seis meses para um povo com 5 mil anos de história?”

Quando o atual governo israelense deixa de fazê-lo, reforça o temor dos palestinos de que Israel esteja, de fato, comprometido com a ideia de dois Estados – ambos para si. Esses seriam Israel pré-1967 e Israel pós-1967, ou seja, Israel, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Os dirigentes palestinos poderiam fazer muito mais para encorajar uma abertura desse tipo, pois a única força capaz de obrigar Netanyahu a mudar de posição é o centro israelense. Isso já ocorreu antes. Afinal, quando a silenciosa minoria israelense vê seu Exército se retirar unilateralmente de Gaza, arrancar de lá os colonos e receber em troca nada além de foguetes; quando ouve palestinos insistindo no “direito de retorno” para parte do seu povo – retorno não apenas à Cisjordânia, mas também a Israel -, isso aumenta entre os israelenses o temor de que os palestinos ainda sonhem com dois Estados, ambos para si: a Cisjordânia e Israel pré-1967.

Estamos realmente de volta ao início desse conflito. Até que cada lado garanta ao outro que ambos desejam de fato dois Estados para dois povos – e não apenas para um deles -, nada de positivo vai ocorrer lá. Em vez disso, pode ocorrer algo terrível.

Publicado originalmente no New York Times

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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