Argentinos criam geladeira solidária e evitam desperdício de comida
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Argentinos criam geladeira solidária e evitam desperdício de comida

Iniciativa, que tem participação de comerciantes e moradores, começou após dono de negócio gastronômico ver um homem com o filho procurando comida no lixo

Redação Internacional

05 de março de 2016 | 16h09

BUENOS AIRES – “Retire livremente só o que necessita”, é a frase em uma geladeira colocada em uma rua da cidade argentina de San Miguel de Tucumán criada com o objetivo de fornecer alimentos para moradores de rua e, ao mesmo tempo, reduzir o desperdício de alimentos.

“Somos donos de três negócios gastronômicos e sempre nos perguntávamos o que fazer com o excedente de comida”, disse Efe Luis Pondal, um dos três fundadores da iniciativa solidária Geladeira Social. O medo de intoxicar alguém ou sofrer um processo por esse motivo barrou durante anos os planos de doar os alimentos que restavam, afirma Pondal.

Fernando Ríos mostra geladeira comunitária - Foto: PALOMA CORTÉS AYUSA / EFE

Fernando Ríos mostra geladeira comunitária – Foto: PALOMA CORTÉS AYUSA / EFE

A situação mudou no dia em que, na hora do fechamento do restaurante, viram como um pai colocava seu filho pequeno no interior de um contêiner de lixo para que buscasse comida entre os sacos de lixo e a maioria do que encontrou procedia de seu restaurante. “Era uma loucura. Sei que é uma imagem cotidiana -quantas vezes caminhamos e vemos gente revirando o lixo -, mas nesse dia decidimos fazer algo, porque é indigno que uma pessoa coma assim”, afirma Pondal.

“Decidimos que ao invés de jogar fora, íamos classificar a comida e colocá-la dentro de uma geladeira para que qualquer pessoa que passasse pudesse pegar o que necessita”, explicou.

A geladeira foi colocada na rua no final de fevereiro e seu sucesso foi imediato. Além dos alimentos não consumidos em restaurantes, dezenas de vizinhos se aproximam diariamente para depositar o que sobra na cozinha.

“Estamos muito surpresos com a participação dos moradores. Pensávamos em fazer por nossa conta e risco, mas perante a grande participação, redigimos um protocolo de cuidado, para que os vizinhos saibam que têm que pôr os pratos em uma bandeja, envolvê-lo em papel filme e rotulá-lo”, detalha.

Além disso, os criadores também receberam inúmeros telefonemas e mensagens nos últimos dias para perguntar sobre o projeto, com a intenção de aplicá-lo em outros lugares da Argentina. “Todos temos uma geladeira social em nossas casas”, ressalta Fernando Ríos, que, junto com Daniela Viñas, integra o trio de fundadores da iniciativa social.

Pondal acredita que são muitas as pessoas que não querem desperdiçar comida, mas faltam canais para evitar e uma regulação clara que permita doar alimentos sem risco de processo depois. “Nunca conhecemos ninguém que tivesse sido denunciado. É uma linda desculpa para olhar para outro lado”, opina o empresário.

Na Argentina são desperdiças a cada ano 1,5 milhão de toneladas de comida, cerca de 38 quilogramas por pessoa, segundo dados de 2015 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca. O pão e os cereais, as frutas e as verduras, e os lácteos, produtos básicos da canastra alimentícia, são os principais grupos de alimentos que vão parar no lixo.

A outra cara da moeda são os 11 milhões de argentinos que vivem sob a linha de pobreza, quase 29% da população. “A discussão não é uma geladeira. A discussão é até quando vamos olhar para outro lado desperdiçando alimentos enquanto tem gente passando fome”, conclui Ríos. /EFE

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