O lado sombrio da presidente croata
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O lado sombrio da presidente croata

Kolinda Grabar-Kitarovic se tornou a sensação da Copa do Mundo, mas é alvo de críticas por uso político da seleção e por envolvimento com líderes nacionalistas

Redação Internacional

12 Julho 2018 | 17h07

A presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, de 50 anos, se tornou a sensação da Copa do Mundo junto com a seleção do país. Apaixonada por futebol,  Kolinda esteve em todos os jogos da seleção croata e fez questão de dar um bico no cerimonial: usou a camisa da seleção, gritou pela equipe, comemorou gols com pulos e até se embrenhou no vestiário croata para celebrar a classificação às finais com a equipe. Mas ela vem sendo criticada por usar a Copa como trampolim político e por ligações com ultranacionalistas no passado.

Descrita como populista e conservadora, Kolinda pertence ao União Democrática Croata (HDZ), partido de direita de linha nacionalista e anticomunista, que por vezes flertou com nacionalistas radicais e com a ala mais fascista dos extremistas conservadores. Ela foi eleita a primeira presidente mulher do país em 2015, no segundo turno das eleições gerais, ao derrotar o candidato social-democrata e então presidente croata, Ivo Josipovic, com 50,54% dos votos.

Kolinda Grabar-Kitarovic (Centro, de vermelho), segurando a bandeira usada pelos nazistas croatas durante a 2ª Guerra. Foto: Reprodução/Facebook / Tihomir Janjicek

Durante sua campanha, em 2014, ela apareceu ao lado de líderes nacionalistas, e se deixou fotografar com a bandeira do Ustashe, um partido nacionalista de extrema-direita que assumiu o poder do Estado Independente da Croácia em abril de 1941, durante a 2ªa Guerra.  O brasão que aparecia na bandeira croata se tornou emblema do partido de inspiração nazista e foi removido depois que os fascistas foram derrotados na Segunda Guerra Mundial.

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“A presidente viu a bandeira e, como você pode ver na foto, ela a segurou. Felicito a Presidente pelo seu sincero croataísmo. Esta bandeira é minha cópia pessoal e foi comprada em Zagreb na época em que era a bandeira croata oficial. Esta bandeira reúne todos os croatas, na Croácia, na Bósnia e Herzegovina, na Sérvia, em Montenegro e em todo o mundo, onde quer que estejam ”, escreveu a ultranacionalista Tihomir Janjicek, ao fazer a postagem em sua conta no Facebook, em 2015.

Kolinda chamou a atenção na Copa do Mundo também por afirmar que estava na Rússia com dinheiro do próprio bolso, e não com recursos do Estado. Ela bancou a viagem e a estada na Rússia durante todo o período, assim como a viagem para Bruxelas, para participar do encontro anual dos integrantes do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Há seis anos, a Croácia enfrenta uma grave crise econômica. A dívida pública representa quase 80% do PIB, e o nível do desemprego beira os 20%. A crise provocou um crescimento da xenofobia e do nacionalismo, e também a ressureição do neonazismo na Croácia.

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O esporte sempre foi uma forma altamente politizada de expressão nacional na Croácia pós-socialista, com os jogadores de futebol frequentemente descritos como “heróis” ou “guerreiros”. O primeiro presidente do país, Franjo Tuđman, proclamou que “as vitórias do futebol moldam a identidade de uma nação tanto quanto as guerras”.

“A atual Copa do Mundo está sendo usada pelas forças nacionalistas e pela atual presidente, Kolinda Grabar-Kitarović, que, ao ser vista pulando nos jogos, está em plena campanha para as eleições presidenciais do próximo ano”, escreveu no jornal britânico The Guardian o filósofo croata Srećko Horvat, fundador do Movimento pela Democracia na Europa ao lado do economista Yanis Varoufakis. “Em 1998, a empolgação em torno da Copa do Mundo estava intrinsecamente ligada à empolgação com o futuro do país na UE; a exaltação de hoje é mais sobre um anseio pelo passado, quando um futuro bom ainda era possível. Agora, nossa economia e sociedade estão de joelhos, com emigração maciça e 43% de desemprego entre os jovens”.

Apesar das polêmicas, Kolinda é considerada da ala moderada de seu partido. Católica fervorosa, ela declarou durante sua campanha, em 2014, que daria o seu apoio caso um dos filhos se assumisse como homossexual. Ela também disse que autorizaria o uso medicinal da maconha e que a decisão de fazer um aborto cabe à mulher.