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Bósnia vive temor de novo conflito

Luiz Moncau

16 de janeiro de 2010 | 07h00

A Bósnia-Herzegovina, palco de uma guerra civil entre 1992 e 1995 no coração da Europa que deixou mais de 100 mil mortos e 4,5 milhões de refugiados, ameaça retomar o ciclo de violência entre os três grupos étnicos (sérvios bósnios, muçulmanos e croatas bósnios) iniciado após a dissolução da Iugoslávia. É o que mostra uma reportagem do jornal The Times, de Londres.

O frágil Estado federativo criado pelo Acordo de Dayton, em dezembro de 1995, para acomodar os três grupos, mostra sinais de esgotamento. E a proximidade das eleições presidenciais e parlamentares, marcadas para o segundo semestre, abriu caminho para  volta do discurso radical que marcou a implosão da Bósnia nos anos 90.

O sinal amarelo foi dado pelo líder servo-bósnio Milorad Dodik, que inicou sua campanha eleitoral com a promessa de levar adiante um referendo propondo a separação da região onde os sérvios bósnios vivem, conhecida como República Srpska, do restante da Bósnia.

Seu argumento é simples: se Kosovo conseguiu sua independência da Sérvia (outra ex-república iugoslava)  há dois anos, e com reconhecimento internacional, os servo-bósnios também teriam direito à autonomia. Para os muçulmanos bósnios, conhecidos como bosniaks e defensores de uma Bósnia indivisível, a proposta soa como uma declaração de guerra.

A queda de braço entre dois dos três grupos étnicos mostra que, mesmo após 14 anos de paz, as feridas da guerra ainda estão longe de serem curadas. A rigor, o Acordo de Dayton fez um arranjo que apenas empurrou para debaixo do tapete a grande lição do conflito: a impossibilidade de os três grupos viverem juntos e em harmonia no mesmo país.

O Acordo de Dayton (nome da cidade dos EUA onde foi assinado) foi desenhado pelo diplomata americano Richard Holbrook, atual enviado especial do governo Obama para o Afeganistão, e saudado na época como uma grande inovação.

Seu maior mérito foi o de ter mantido intacto o Estado federal da Bósnia-Herzegovina, comandado por uma presidência colegiada de três integrantes, sob o qual vivem os três grupos étnicos em regiões adminstrativas com ampla autonomia. O objetivo era evitar a partilha da Bósnia para não beneficiar os promotores da guerra – os servo-bósnios, com apoio da Sérvia, então comandada por Slobodan Milosevic – e, doce ilusão, retomar a caraterística multiétnica do país na era pré-conflito.

Na prática, porém, a Bósnia federal é apenas uma ficção: os três grupos não se misturam, não há integração cultural e tampouco noção de um nacionalismo bósnio acima das diferenças étnicas.

A ONU e a comunidade internacional apostaram alto no Acordo de Dayton. Para mantê-lo de pé, a Bósnia recebeu, desde 1996, US$ 14 bilhões em ajuda externa. Os custos incluem obras de reconstrução de cidades arrasadas pela guerra, pessoal técnico em várias áreas e manutenção de forças de paz.  Hoje, a Bósnia conta com um Exército nacional de 8.500 homens sob ordens da presidência colegiada, além de 2 mil capacetes azuis da ONU.

O acirramento das rivalidades étnicas, cada vez mais evidente, preocupa a comunidade internacional. A União Europeia acena com uma possível integração da Bósnia ao bloco europeu, com a condição de o país manter-se unido e indivisível.

O problema é que muitos países do bloco recusam-se a aceitar um país que parece prestes a explodir em um novo conflito. Embora sejam remotas as chances de a Bósnia mergulhar numa guerra sangrenta como a dos anos 90, os servos-bósnios já perceberam que a promessa de integração à UE é apenas uma desculpa para evitar a autonomia. E prometem ir até o fim. (The Times)

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