‘Brasil deve assinar o protocolo adicional do TNP’, diz acadêmico
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‘Brasil deve assinar o protocolo adicional do TNP’, diz acadêmico

Ricardo Chapola

11 de abril de 2010 | 10h00

Joseph Nye / Foto: Divulgação

Joseph Nye / Foto: Divulgação

Para Joseph Nye, professor da Universidade Harvard, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) é a única forma viável de conter a ameaça atômica e o Brasil precisa ajudar a fortalecê-lo, aderindo ao seu protocolo adicional.

Pai do termo “soft power”, Nye diz que Barack Obama “restabeleceu a imagem dos EUA” e sustenta que o Brasil obteve nos últimos anos sua própria versão do poder brando. Ele falou com o Estado após palestra no Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC).

Estado – Estamos diante de duas grandes cúpulas sobre a questão nuclear. O sr. acredita que no mundo de hoje, com regras menos explícitas do que na Guerra Fria, é realmente possível conter a proliferação?
Nye – Sim, e o TNP fornece os parâmetros para isso. John Kennedy (1961-1963) previa que em poucas décadas 27 países teriam a bomba. Hoje, nove Estados a têm. Devemos apostar no TNP e em seu protocolo adicional, ao qual o Brasil deve aderir.

O governo brasileiro queixa-se de que potências nucleares não cumprem sua promessas de reduzir arsenais.
O recente acordo entre EUA e Rússia avança nesse sentido e prevê cortes de até um terço das ogivas existentes.

O sr. parece bastante otimista com esse novo pacto.
Trata-se de um passo muito importante por duas razões. Primeiro, auxilia Obama a reduzir o papel das armas nucleares na política internacional. Segundo, ajuda a melhorar as relações Rússia-EUA. Após assumir, Obama disse que desejava “reiniciar” o diálogo com Moscou e o pacto mostra a capacidade de cooperação dos dois países. É uma vitória de Obama.

Quais são as chances de o acordo não ser ratificado no Senado?
Acho que ele será ratificado. Caso contrário, haverá um sério prejuízo para a Casa Branca. Obama não poderá repetir a estratégia usada para aprovar a reforma da Saúde, quando a vitória foi garantida apenas pelo voto do Partido Democrata, sem nenhuma adesão de republicanos. Desta vez, é preciso que oito opositores votem a favor.

Antes de assumir, em sua confirmação no Senado, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que buscaria dotar sua diplomacia de “smart power” – conceito que o sr. cunhou para definir o equilíbrio entre poderes “soft” (brando) e “hard” (duro). Olhando hoje, ela teve sucesso?
Se olharmos o primeiro ano do governo Obama, o presidente fez muito para retomar o “soft power” dos EUA. Seus discursos em Praga, no Cairo e na ONU buscaram restabelecer a confiança do mundo no multilateralismo americano. Ao mesmo tempo, ele demonstrou ser capaz de usar o “hard power”. As decisões de enviar mais soldados ao Afeganistão e usar aviões não-tripulados no Paquistão demonstram isso. Essa combinação de poderes “soft” e “hard” – a qual chamo de “smart power” – foi bem usada.

Na eleição de Obama, o sr. sugeriu que ele, em nome do “soft power”, fechasse a prisão de Guantánamo. Até hoje, porém, Guantánamo está ativa, sobretudo por questões de política interna. Como o sr. vê isso?
O fechamento de Guantánamo tem sido mais lento do que o esperado por dois motivos. O primeiro é a oposição republicana. O segundo, os problemas em relação a o que fazer com os prisioneiros. Há os que não podem ser libertados porque eles voltarão ao terror.

No governo George W. Bush, o sr. disse que Guantánamo havia se tornado um símbolo mais forte dos EUA do que a Estátua da Liberdade. Com Obama essa situação se inverteu?
Sim. Há muito cinismo em relação à política americana. Acreditava-se que era preciso ser rico e ter um sobrenome famoso para virar presidente. Mas um negro de nome estranho foi eleito. Essa trajetória restabeleceu a fé nos EUA – e é isso que a Estátua da Liberdade representa.

Há um “soft power” brasileiro?
As pessoas estão levando muito mais a sério o Brasil de hoje, do que 20 anos atrás. Isso é “soft power”. A evolução veio porque o País soube lidar com suas questões internas. Reduziu a inflação, adotou políticas econômicas responsáveis e promoveu um desenvolvimento bem estruturado. Países passaram a admirar o Brasil por causa disso.

O Brasil tem virado a cara para violações de direitos humanos em países como Cuba. Como o sr. vê isso?
Acho muito bom que o Brasil tenha uma papel cada vez mais importante no mundo. Mas se isso for feito às custas dos direitos humanos, não é positivo nem para o Brasil nem para o mundo. Ignorar violações em Cuba ou no Irã é péssimo.

Estamos assistindo à ascensão de países como Brasil, Índia, China, África do Sul, entre outros. Que tipo de tensão em instituições multilaterais essa mudança provoca?
É fundamental desenvolver e adaptar instituições internacionais de acordo com a emergência dessas novas potências. E acho que estamos começando a fazer isso. O fato de o G-20 estar substituindo o G-8 é uma indicação desse novo enquadramento internacional, capaz de acomodar países como Brasil e Índia. Isso é uma coisa boa.

Vários países, entre eles o Brasil, querem que essa lógica seja aplicada ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Seria bom ver isso aplicado ao Conselho de Segurança, com uma reforma capaz de abarcar esses novos países. Mas o problema aqui é que atuais integrantes do conselho resistem à entrada de outros por “ciúme”. A China tem isso em relação ao Japão e à Índia, por exemplo. Imagino que talvez os argentinos e mexicanos não fiquem muito felizes se brasileiros passarem a integrar a instituição.

Há atualmente uma série de impasses em organizações internacionais, como por exemplo a Rodada Doha na OMC, o caso do Irã na ONU ou mesmo a falta de consenso na Conferência do Clima em Copenhague. O sr. teme uma crise na chamada “governança global”?
Isso é verdade se você acredita que tudo deve ser feito com 192 Estados ao mesmo tempo. Mas, se aceitarmos a ideia formulada na Europa de instituições com “geometria variável”, a coisa pode ficar menos complicada. Dou-lhe um exemplo: há oito países responsáveis por 80% da emissão global de poluentes; eles poderiam criar um grupo de negociação que, por sua vez, levaria a questão aos demais.

Mas o sr., ao mesmo tempo, tem sido crítico à ideia de um “G-2” formado por EUA e China.
O “G-2” é uma péssima ideia porque sugere que EUA e China podem conduzir as coisas sozinhos. Hoje, com questões como clima, segurança e economia, é preciso que mais países entrem no debate.

O sr. discorda dos que definem os EUA como um “poder hegemônico” ou “império”. Por quê?
Se olharmos para um império como o britânico, por exemplo, veremos que os burocratas de Londres controlavam o que constaria nos livros escolares no Quênia. Em outras palavras, tinham controle sobre a vida cotidiana em suas colônias. Isso é um império. Os americanos não têm o controle – eles têm apenas influência.

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