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Cantor cubano defende que revolução seja ‘reinventada’

Ricardo Galhardo

10 de abril de 2010 | 08h00

Um dos ícones da revolução, o cantor e compositor cubano Silvio Rodríguez faz hoje (sábado) um show contra a “campanha dos EUA e da Europa” para desestabilizar o regime da ilha. Rodríguez nunca deixou de apoiar o “processo revolucionário de Cuba”, mas recentemente tem chamado a atenção para a necessidade de reformas. Em entrevista por e-mail, ele disse que Cuba precisa aprender a ser mais tolerante com os que pensam diferente e defendeu a necessidade de “reinventar a revolução”.

Estado – O senhor disse recentemente que Cuba pede mudanças “a gritos”. Quais são as reformas mais urgentes?
Rodríguez – É preciso uma só mudança ampla: durante os primeiros 25 anos, o governo revolucionário era quem falava sobre o futuro para os cidadãos. Agora, parece que os cidadãos têm de falar com o governo. Seria bom encontrar uma maneira de voltar a sentir a sintonia daqueles primeiros tempos.

Estado – Como o sr. vê as pressões para que o governo cubano liberte os presos políticos?
Rodríguez – Qualquer coisa que acontece em Cuba se amplifica muito. Há países onde os opositores desaparecem e são assassinatos e dos quais ninguém fala. Coisas desse tipo foram ditas sobre Cuba, mas eu não acredito nelas. Se fossem verdade, o povo cubano já teria se revoltado, como fez outras vezes na nossa História.

Estado – E como avalia o modo como governo trata seus críticos?
Rodríguez – Em alguns sentidos nossa política interna tem de amadurecer. Temos de aprender a ser mais respeitosos com os que pensam diferente. Nisso já avançamos muito, por exemplo, no que diz respeito à sexualidade e à religião. Mas na política somos mais intransigentes. Talvez se fosse levantado o bloqueio (dos EUA a Cuba) haveria um relaxamento nesse aspecto.

Estado – Qual a possibilidade de uma distensão com os EUA e o fim do embargo?
Rodríguez – O que sei é que muitas coisas poderiam mudar com o fim do bloqueio. Com menos pressões teria de haver mais liberdade. Creio que então teríamos condições para demonstrar o que realmente somos capazes de ser – ou não ser.

Estado – O senhor diz que é necessário “reinventar a revolução”. O que seria isso?
Rodríguez – Reinventar a revolução significa voltar para onde os caminhos se bifurcaram e tomar aquele que não tomamos. Significa entender que o Estado não pode arcar sozinho com a complexa vida do país. Não se trata de cair num liberalismo, mas de permitir que a iniciativa popular ajude o Estado e que, com isso, o povo possa ajudar a si mesmo.
 
Estado – Algo já mudou na ilha nos últimos anos, com Raúl Castro no poder?
Rodríguez – O presidente Raúl Castro chegou assumindo criticamente (a realidade) do país e prometendo mudanças. Mas no ano passado tivemos três furacões e isso nos deixou economicamente num estado precário. Agora dizem que as mudanças não foram realizadas por isso.

Estado – O que querem as novas gerações de cubanos?
Rodríguez – Os mais jovens têm algumas vantagens, regalias que nós, os mais velhos, não tivemos, mas nenhuma geração se conforma pensando que antes as coisas eram piores: todos chegamos ao mundo para aspirar mais do que o que nos recebe. Alguns podem ter a ilusão de que a vida é mais fácil em outro país. Mas emigram e se chocam com a dureza da realidade. Acredito que a maioria (dos jovens cubanos) quer ter oportunidades em sua própria terra. Nesse sentido,  não se diferenciam dos jovens de qualquer outra região.

Estado – Por ser artista, o senhor tem a possibilidade de viajar para o exterior. O que pensa sobre a necessidade de autorização para os cubanos saírem do país?
Rodríguez – Não são só artistas que viajam em Cuba. Há dezenas de milhares de profissionais liberais cubanos prestando serviços no exterior, sobretudo no setor de saúde pública (são médicos, que estão principalmente na Venezuela e Bolívia). Nossos esportistas também viajam constantemente. Sempre fui partidário de eliminar as permissões de entrada e saída para os cubanos. Disse isso muitas vezes.

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