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Celeste Caeiro, a mulher que deu nome à revolução em Portugal

Redação Internacional

25 Abril 2014 | 11h46

LISBOA – A portuguesa Celeste Caeiro, de 80 anos e um metro e meio de estatura, se ruboriza quando lhe dizem que ela faz parte da história, apesar de quase não falar mais, e apenas sussurrar. “Não tinha nada mais para dar a não ser um cravo”, relembra a mulher que, sem pretender, deu nome à Revolução dos Cravos em seu país.

Nesta sexta-feira, 25, os portugueses comemoram os 40 anos da Revolução dos Cravos. O levante que acabou com quase 50 anos de ditadura em Portugal partiu dos militares e permitiu a transição para a democracia, liderada pelos políticos.

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Um ano antes do golpe militar, Celeste começou a trabalhar no guarda-volumes de um restaurante – que abriu exatamente dia 25 de abril de 1973 – no centro de Lisboa, o Sifire, que introduzia um conceito inovador: o self service.  “Os donos queriam fazer uma festa para comemorar o primeiro aniversário da casa (em 1974) e em uma festa não podem faltar as flores”, conta Celeste.

“No dia 25 de abril de 1974 fui, como era costume, bem cedo para o trabalho. Chegamos, vimos a porta fechada e o gerente nos disse que não ia abrir porque estava acontecendo uma revolução, mas que fôssemos ao estoque e pegássemos as flores, para que não fossem desperdiçadas”, lembra. Essa foi a primeira notícia que Celeste teve do golpe militar. Contra o conselho de seus chefes, ela decidiu não ir diretamente para casa, mas foi se informar sobre o que estava acontecendo, mas antes pegou vários cravos vermelhos e brancos.

“Não respondi, mas disse para mim mesma: se há uma revolução, eu quero ver o que está acontecendo”. Após uma curta viagem de metrô, Celeste chegou na praça do Rossio, no início do Largo do Carmo, onde os tanques dos sublevados aguardavam novas ordens em uma tensa espera desde a madrugada. “Olhei para eles e disse a um soldado ‘o que é isto, o que estão fazendo aqui?’ Vamos para o Quartel do Carmo, onde está Marcello Caetano, o presidente”, lhe responderam.

O soldado, que já estava algumas horas de guarda, pediu a Celeste um cigarro. “Eu nunca fumei, mas naquele momento lamentei não ter um. Verifiquei se havia algo aberto, mas era cedo demais, estava tudo fechado e não havia ninguém na rua. Olhei para os cravos e disse lamentava, mas que só tinha flores. Peguei um cravo, o primeiro foi vermelho, e ele o aceitou. Como sou assim tão pequenina e ele estava em cima do tanque, teve que esticar o braço, agarrou o cravo e o colocou em seu fuzil”, descreve, com os olhos cheios de lágrimas.

Outros soldados imitaram o companheiro e pediram a Celeste um desses cravos, vermelhos e brancos, que levava sob o braço, até distribuir todos. “Nunca esperei que os cravos viessem a derivar em tudo isto, foi um gesto sem segundas intenções.”

Horas mais tarde, várias floristas se esforçavam para que ninguém ficasse sem um cravo, contribuindo para transformá-los em um ícone de liberdade. O ato de Celeste deu nome a uma revolução lembrada pela ausência de derramamento de sangue.

A história de Celeste é desconhecida por muitos de seus compatriotas. “Eu tenho uma pensão muito pequena (370 euros) e pago muito de imposto, 190 euros por mês. É minha filha que me ajuda”, explica./ EFE

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