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China influencia eleição nos EUA

Redação Internacional

21 de novembro de 2011 | 11h30

WILLIAM PESEK, DA BLOOMBERG NEWS, É COLUNISTA ESPECIALIZADO EM ECONOMIA ASIÁTICA

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De todas aqueles que Barack Obama achava seriam seus competidores no próximo ano, talvez os mais inesperados sejam os líderes da China.

O presidente está percebendo isso na viagem que faz pela região da Ásia-Pacífico. Sua campanha pela reeleição parece ter ficado mais movimentada no último fim de semana no Havaí, onde disse “basta” à falta de medidas da China no tocante a uma valorização da sua moeda e o respeito aos direitos de propriedade internacionais.

Podemos estar observando o começo de um confronto maior com a China.

Obama não deve apenas ver seus contrapartes mercantilistas como um alvo fácil quando os eleitores questionam por que o desemprego está emperrado nos 9%; a China também é o lugar certo para ele direcionar suas frustrações. Embora essa estratégia envolva tanto riscos como oportunidades, vale a pena insistir nela.

Os fatos ocorridos na cúpula dos países da região da Ásia-Pacífico deixaram à mostra algo preocupante. Na medida em que o mundo se encaminha para uma nova crise global, que pode ser muito pior do que a de 2008, a segunda maior economia do mundo redobra seu egoísmo retrógrado. A China tem dado sinais de que está mais determinada do que nunca a agir segundo as suas próprias regras em detrimento dos demais. Se Obama não permanecer firme, poderá ser lembrado como o presidente que, num certo sentido, perdeu a China.

A hipocrisia é um elemento central neste momento de disputa entre Estados Unidos e China. O acúmulo da dívida americana vem preocupando não só as empresas de classificação de crédito, mas também os banqueiros credores dos Estados Unidos em Pequim. Juros ultrabaixos fornecem à China um retorno desprezível sobre seus US$ 3,2 trilhões de reservas cambiais, com o Federal Reserve fazendo a sua parte para desvalorizar o dólar. Mas é exagero pensar que uma valorização do yuan chinês vai provocar uma melhora imediata na criação de empregos nos Estados Unidos.

Mas se a China começasse a agir cumprindo com as regras globais do comércio, patentes e mudança climática, o mundo todo colheria os dividendos. E se a Organização Mundial do Comércio (OMC) não estiver à altura da tarefa de exigir que os chineses façam a sua parte para reequilibrar a economia mundial, de que vale? Obama deve evitar o erro cometido por Bill Clinton e George W. Bush.

Ambos foram influenciados pelas multinacionais que insistiam para os Estados Unidos firmarem uma paz econômica com a China, acima de tudo.

É verdade que uma guerra comercial total não favorece ninguém. Mas também não é bom anular o futuro econômico dos EUA em favor de relações mais estáveis.

Os interesses das multinacionais – lucros e paraísos fiscais – não combinam necessariamente com os dos trabalhadores americanos. Quando os executivos se inquietam com guerras comerciais, eles estão pensando no trem da alegria da China – ou seja, mão de obra barata e regras ambientais negligentes, que aumentam os ganhos, mas não o número de trabalhadores.

Num certo sentido, no caso da China, Obama corre o risco de repetir o mesmo erro que cometeu com os republicanos que bloquearam cada medida adotada por ele para estimular a economia. É importante trabalhar com os oponentes. E mais importante ainda é se ater aos ideais e agir no interesse de todos os americanos.

Uma posição mais firme com relação à China não levaria necessariamente a um confronto por uma razão muito simples: não é do interesse da China como não é dos Estados Unidos. O que mantém sólida a economia chinesa são as exportações. A imposição de tarifas severas pelos Estados Unidos ou Europa sobre os produtos chineses causaria um forte impacto.

Vamos deixar de lado também a ideia de que a China tem uma grande influência sobre os Estados Unidos porque detém US$ 1,1 trilhão de títulos do Tesouro americano. Na verdade é uma fraqueza. O menor indício de que os chineses estariam vendendo ativos em dólar elevaria os rendimentos dos Estados Unidos e reduziria o valor do dólar. E isso não só significaria menos poder de compra dos Estados Unidos, com uma queda na demanda de produtos chineses, mas também uma redução do valor do investimento da China.

Obama deve estar encontrando aliados na Ásia. O presidente Hu Jintao acertou ao afirmar que o sistema econômico global necessita de uma reformulação. A influência cada vez maior das nações em desenvolvimento sugere que as Nações Unidas, o G-20, o Fundo Monetário Internacional e outras instituições precisam permitir que as vozes da outrora considerada periferia sejam ouvidas.

Mas é importante o que essas vozes dizem e fazem. O comércio não é um jogo de soma zero, mas as políticas monetárias da China assim o tornaram. Autoridades de Jacarta a Brasília devem se manifestar porque suas economias estão sendo prejudicadas pela obsessão de exportar da China. E não o fazem por medo de entrar em litígio com a que um dia poderá ser a maior economia do mundo.

A um ano apenas da eleição, muito coisa vai depender de como Obama agirá com a China. Ele precisa parar de agir como se os Estados Unidos se tivessem perdido o jogo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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