Cinco questões sobre a batalha de Mossul 
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Cinco questões sobre a batalha de Mossul 

Forças iraquianas e peshmergas deram início a uma grande ofensiva para a expulsão do Estado Islâmico da segunda maior cidade iraquiana. Veja cinco questões levantadas pelo jornal britânico Guardian sobre a batalha: 

Redação Internacional

17 Outubro 2016 | 16h52

Iraq's Kurdistan region's President Massoud Barzani (C) speaks during a news conference on the outskirts of Mosul, Iraq, October 17, 2016. REUTERS/Azad Lashkari

Massoud Barzani (C), presidente do Curdistão do Iraque, anuncia ofensiva para retomada de Mossul. Foto: Azad Lashkari / Reuters)

Por que Mossul é importante para o Estado Islâmico? 

A cidade é a segunda maior do Iraque e está sob poder do Estado Islâmico desde meados de 2014. Desde então, o denominado ‘califado’ do grupo terrorista devastou a autoridade oficial no coração da região, levando a um grande êxodo da população local, a tentativas de genocídio contra minorias e semeando dúvidas sobre o futuro do Iraque. A formação de um califado dentro das fronteiras de um país já existente é essencial à ideologia do EI e o grupo terrorista é o primeiro na história moderna a controlar seu próprio ‘estado’ dessa maneira. Sem um califado, seria significativamente difícil para o EI recrutar novos membros para se juntar à sua guerra contra o mundo. Perder Mossul tornaria mais fácil aos oponentes do EI recapturar a capital do grupo, localizada em Raqqa, na Síria, em razão da grande rota de suprimentos que seria cortada no Iraque. Por essa razão, espera-se que a ofensiva sobre a cidade seja difícil e demorada, numa batalha que deverá enfrentar entre 5 mil e 8 mil combatentes do EI defendendo Mossul. Esses combatentes estão escondidos entre a população civil de cerca de 1,5 milhão de pessoas, a maioria das quais deverá fugir à medida que a batalha se intensificar.
Quem está envolvido no ataque? 
A ofensiva é uma operação conjunta de mais de 30 mil soldados do Exército iraquiano, peshmergas (milícia curdo) e forças paramilitares xiitas. Também no campo de batalha estão forças americanas, britânicas e francesas, que têm sido aconselhadas pelos peshmergas e desempenharão um importante papel designando alvos do EI na cidade para bombardeios aéreos. Os EUA recentemente adicionaram 600 soldados que colaborarão na retomada de Mossul, elevando o total de pessoal militar dos EUA no Iraque para mais de 5,2 mil, de acordo com o Pentágono. O governo americano informou estar ‘orgulhoso’ de apoiar seus aliados nessa ofensiva.
Quanto tempo deverá durar a ofensiva? 
Os estrategistas de guerra esperam lutar por pelo menos semanas, ou até meses. Forças curdas esperam enfrentar grande resistência do EI, que já começaram a perder as cidades de Tikrit, Ramadi, Sinjar e Fallujah e uma grande área perto de Erbil. Apesar de mais de um ano de bombardeios aéreos liderados pelos EUA, morteiros continuam sendo disparados contra forças curdas. Acredita-se que o EI tenha distribuído milhares de explosivos improvisados em vilarejos no caminho para Mossul, em uma tentativa de retardar seus inimigos. O Estado Islâmico também tem usado gás mostarda contra forças curdas – pelo menos 19 vezes nos dois últimos anos. Acredita-se que os milicianos responsáveis em manusear as armas químicas tenham sido todos capturados ou mortos, mas o risco de novos ataques ainda é considerado.
O que a ofensiva significa para as pessoas em Mossul? 
Desde que tomaram a cidade, militantes têm expulsado civis, estabelecido postos de checagem nas estradas e explodido as casas de quem abandona a região para deter outros de fazer o mesmo. Mas enquanto deixar a cidade significa se arriscar em campos minados, e ficar sob o risco de ser descoberto e punido pelo EI, aqueles que decidem ficar enfrentam araques aéreos, batalhas nas ruas e um potencial cerco das forças iraquianas, além da possibilidade de serem usados como escudos humanos pelo EI. Os jihadistas têm usado civis para se proteger em outras cidades onde perderam controle nos últimos meses, e militantes têm se mudado para áreas residenciais para tentar não ser alvo de ataques aéreos americanos, que agora miram áreas muito próximas de casas de civis. Aqueles que estão presos em Mosul estão cavando abrigos antibomba improvisados, estocando comida e permanecendo dentro de casa para evitar os ataques e provocações de militantes. As Nações Unidas e organizações de ajuda humanitária alertam que um grande número de civis já está em perigo com a operação a caminho. Uma das questões que mais preocupam as autoridades é a de como responderão à provavelmente maior onda de refugiados de apenas um lugar desde meados de 2014. A onda de deslocados deverá ser mais difícil de gerenciar do que a guerra em si e agências de ajuda humanitária estão correndo contra o tempo para elaborar um plano antes da ofensiva.
A member of Peshmerga forces sits in the back of the military vehicle in the east of Mosul during operation to attack Islamic State militants in Mosul, Iraq, October 17, 2016. REUTERS/Azad Lashkari

Membro das forças peshmergas aguarda ofensiva. Foto: Azad Lashkari/Reuters

Por que preocupações sectárias ganharam tanto peso na elaboração da ofensiva?
Tensões sectárias continuaram altas na região nos anos após a queda de Saddam e atingiram seu pico antes da chegada do EI a Mossul. Sob o controle do grupo terrorista, forças iraquianas, em sua maioria xiitas que já haviam alienando a população local, rapidamente entregaram a cidade. Restaurar a confiança da cidade com Bagdá assim como o fornecimento de serviços básicos será o maior desafio pós-EI. O governo central iraquiano permanece fraco e com pouca influência nas áreas sunitas do país. Os EUA, que mantiveram presença em Mossul até 2010, não têm mais tropas de ocupação no país. A administração Obama tem afirmado que a presença de 6 mil homens de seu Exército no Iraque têm o objetivo de apenas combater o EI. Para a ofensiva, milícias xiitas e forças peshmergas que têm desempenhado papel vital na guerra contra o EI, não devem entrar na cidade de maioria sunita. O Exército iraquiano, que é composto em sua maioria por soldados e oficiais xiitas, liderará a batalha. As forças de contra-terrorismo do Exército, que agiram na batalha de quatro semanas para retomar Fallujah em junho, coordenarão a batalha. Unidades peshmergas planejam bloquear posições no norte e no leste, onde elas também receberão os civis que fugirão da cidade. As unidades de mobilização popular, conhecidas como Hashd al-Sha’bi, estão confinadas para desempenhar um papel de bloqueio na saída oeste da cidade.

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