Cobertura no Iraque exige sangue-frio e ‘jeitinho’
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Cobertura no Iraque exige sangue-frio e ‘jeitinho’

Redação Internacional

08 de março de 2010 | 06h12

Ser brasileiro ajuda – quando se tem a chance de dizer que é brasileiro, relata o enviado Lourival Sant’Anna

 

O eleitor Fahd Abdullah al-Aziz conversa no celular com o intérprete do 'Estado' (Foto: Juca Varella/AE)

O eleitor Fahd Abdullah al-Aziz conversa no celular com o intérprete do 'Estado' após votar: operação de guerra (Foto: Juca Varella/AE)

Com um fuzil M-4 pendurado no peito, o soldado iraquiano sacou uma pistola automática do coldre, como faz um militar quando tem de render um homem desarmado. Um homem com farda do Ministério do Interior interpôs-se entre ele e eu. Olhou para as minhas pernas cruzadas dentro do carro: “Você não demonstra respeito em um bloqueio militar?” Finalmente entendi. A sola da minha bota estava virada para o soldado – um grave insulto para os árabes, mesmo com a porta do carro fechada. “Sou brasileiro”, respondi. “Para nós, isso não é desrespeito. Mas não voltará a acontecer.” O oficial hesitou por um instante: “Está bem, vá embora.”

Poucos dias depois, eu filmava com minha câmera pela janela do carro, quando passamos rapidamente por um controle policial. Ouvimos o barulho inconfundível da AK-47 sendo armada: “clash-clak”, seguido de gritos para parar o carro. É proibido fazer imagens nos “checkpoints”.

Mostrei as três credenciais que trago penduradas no peito: a das Forças Armadas americanas, a da Comissão Eleitoral e a do jornal, escrito em letras grandes Press Brazil. “Sahafi brasili” (“Jornalista brasileiro”), disse eu sorrindo. O policial devolveu o sorriso: “Ok, habibi” (amigo). Ser brasileiro ajuda – quando se tem a chance de dizer que é brasileiro.

Na manhã deste domingo de eleição, tínhamos acertado com dois intérpretes e dois motoristas, num total de quatro carros. Parecia exagero. Nenhum conseguiu chegar ao nosso hotel, no centro de Bagdá. Da abertura das urnas, às 7 horas, até por volta de 10 horas, Bagdá esteve sob bombardeio. O fotógrafo Juca Varella e eu cronometramos por volta das 8h30: da sacada do hotel, ouvíamos em média quatro morteiros por minuto. Os checkpoints foram fechados.

Um dos motoristas conseguiu chegar até uma avenida perto de uma escola onde havia seções eleitorais. Fomos a pé até lá. Os militares e policiais não permitiam que ele estacionasse. Subi no carro e ficamos indo e voltando na avenida. Parávamos o carro, pedíamos para os eleitores subirem no banco de trás, e eu os entrevistava, entre um bloqueio e outro. Num percurso de quatro quadras, éramos parados quatro vezes pelos policiais e militares. Voltei para a escola, telefonei para um dos intérpretes e passei a entrevistar os eleitores com ele fazendo a tradução pelo celular.

Pela tarde, os ataques pararam, e os militares permitiram o tráfego para os carros que tinham as autorizações da Comissão Eleitoral e do Comando Bagdá das forças de segurança iraquianas, como era o caso de um dos nossos motoristas. Fomos até o bairro periférico de Jihad, onde tinha havido atentados a bomba. Dezenas de policiais federais, apoiados por veículos blindados e camionetes com metralhadoras montadas sobre a carroceria, patrulhavam o bairro. Depois de alguma tensão, os policiais gostaram da ideia de ser acompanhados por jornalistas brasileiros. Era uma demonstração de força e controle da situação. Mais uma vez, eles estavam sorrindo. (Lourival Sant’Anna)

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