As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Colecionador de Alepo sonha em restaurar seus carros destruídos pela guerra síria

Mohamed Mohiedine Anis chegou a ter 30 veículos, mas alguns foram roubados durante os combates

Redação Internacional

16 de março de 2017 | 06h00

ALEPO – Mohamed Mohiedine Anis olha com pena seu Buick Super 1955 mutilado pelos intensos combates entre o Exército e os rebeldes sírios que devastaram Alepo durante mais de quatro anos. Os blocos de pedra que caíram de um prédio de seu bairro de Shaar durante um bombardeio aéreo achataram o teto e afundaram o capô do carro, imprimindo à grade do radiador uma espécie de ricto de sofrimento.

“Veja, está chorando. Está ferido e me pede ajuda”, afirma o colecionador de 70 anos, que promete consertar o carro agora após o Exército retomar, em dezembro, o controle da segunda cidade da Síria.

O bairro inteiro está em ruínas: os prédios esburacados ou desabados, janelas quebradas e as ruas tomadas de poeira e escombros.

Mohamed, que estudou medicina na Espanha e depois traduziu para o árabe o manual Fiat na Itália, voltou para sua cidade para abrir uma fábrica de cosméticos, em particular de batons, que batizou de “Mila Robinson”.

Mas sua verdadeira paixão é sua coleção de carros. Ela a herdou de seu pai, um rico colorista têxtil que dirigia um Pontiac 1950, carro que Mohamed guarda com a maior estima.

Chegou a ter 30 carros, mas perdeu dez, destruídos ou roubados durante a guerra. Treze estão estacionados diante de sua casa, outros sete estavam na garagem, mas foram retirados pela polícia porque obstruíam a passagem.

Cadillac. Em fevereiro de 2016, um videojornalista da AFP entrevistou Mohamed, mais conhecido por seu apelido Abu Omar, e gravou seus carros reluzentes e sua casa então intacta. “Gosto deles porque são como as mulheres, belas e fortes”, diz o colecionador, que tem duas mulheres, uma em Alepo e outra em Hama, e oito filhos.

Seus gostos são bastante ecléticos, com uma preferência pelos veículos americanos dos anos 1950: Cadillac, Hudson, Buick, Chevrolet, Mercury. Ele também tem um Volkswagen e um furgão 2CV. “Tenho três Cadillacs porque são os mais luxuosos. Todo colecionador deve ter um Cadillac. Se não tiver, é como se sua coleção não tivesse cabeça”, afirma com convicção.

Seu maior orgulho é um Cadillac 1947 vermelho e conversível, que foi usado por ao menos seis presidentes, uns eleitos democraticamente e outros no poder após um golpe de Estado. Nesse Cadillac, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e seu colega sírio Shukri al Kuwatli percorreram Damasco depois da proclamação, em 1958, da República Árabe Unida, produto da breve união entre o Egito e a Síria.

“Eu o comprei há 12 anos em um leilão por 620 libras sírias, mas me custou cem vezes mais porque nunca pagaram os impostos alfandegários”, explica. Para que o carro não seja roubado, Mohamed escondeu o volante e os bancos em sua casa.

Todos os carros estão em péssimo estado em razão da guerra. “Estão todos feridos”, lamenta o sírio, como se falasse sobre pessoas. Ele quer reformar os carros antes de sua casa. “E tenho a intenção de comprar outros”.

Alguns estrangeiros se ofereceram para comprar seus carros, mesmo estando em mau estado. Ele recusa. “São como filhos para mim. Eu os distribuirei segundo a lei religiosa: dois para cada filho e um para cada filha”, conclui.

Arma de guerra. Seu vizinho Nihad Sultan, um cantor de 30 anos, conta que, quando Mohamed ficou fora da cidade durante os últimos dois meses de combates, os habitantes do bairro convenceram os rebeldes para que não instalassem uma metralhadora pesada antiaérea na caminhonete Chevrolet 1958.

Depois da vitória das forças do regime de Bashar Assad, Mohamed voltou para sua casa, construída nos anos 1930, mas a encontrou destruída. “Sofri um grande abalo”, conta. Os vidros foram quebrados, pedras jogadas por todo lado, cômodos destruídos e tudo está tomado por escombros.

De vez em quando Mohamed se senta em seu quarto, como costumava fazer antes da guerra. Acende seu cachimbo e ouve na vitrola Victor a canção Hekaya (História, em árabe), do cantor sírio Mohamed Dia al Din. “Gosto dessa música porque vive em mim. Meu passado foi muito feliz, mas as coisas mudaram. Agora está muito duro. Mas não podemos desanimar.” /AFP

Tudo o que sabemos sobre:

SíriaAlepoCadillac