As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

‘Coletivos’ venezuelanos mantêm obras sociais

Felipe Corazza

12 de abril de 2014 | 02h10

Denise Chrispim Marin
Enviada especial a Caracas

Organizados desde o início dos governos de Hugo Chávez como grupos de atuação local nas comunidades mais pobres, os ‘coletivos’ acabaram sendo estigmatizados como violentas milícias de defesa do oficialismo. Mas trabalhos sociais ainda mantêm as raízes de alguns destes grupos com seus bairros. Como ação social, o ‘coletivo’ La Piedrita mantém um restaurante que serve refeições gratuitas a mais de 100 pessoas carentes em dias úteis e uma creche. Erilda Rodríguez cuida sozinha há quatro anos do refeitório La Dignidad – Lina Ron. “Venho pela revolução. Tenho muito a agradecer porque me deram um terreno e o material de construção para eu levantar minha casa”, afirmou, enquanto cozinhava.

Do Panal 2021, coletivo da Fundação Alexis Vive, não se poderia mencionar nenhum traço paramilitar não fosse uma série fotográfica de 2012. As imagens mostram uma instrutora e crianças com fuzis automáticos nas mãos durante um evento público do coletivo. O grupo trazia o uniforme da fundação. As fotos suscitaram um processo judicial movido pela advogada Helene Rodríguez, especializada em Direitos Humanos.

Alexis Vive expõe sua orientação, como outros coletivos, em murais na vizinhança. Um deles traz a imagem de Nossa Senhora com um fuzil Kalashnikov. Outro reproduz a Santa Ceia, mas com Jesus ladeado por revolucionários comunistas e Chávez, entre outros. Salvador Salas, um dos dirigentes da fundação e do Panal 2021, afirma não haver armas no coletivo porque elas não seriam necessárias. “Sofremos um estigma. O propósito da burguesia é criminalizar as organizações populares para poder atacá-las”, afirmou ao Estado. “Aqui temos só ação preventiva. Eu me atrevo a dizer que aqui é um dos lugares mais seguros de Caracas”, completou Robert Longa, vereador suplente e líder do coletivo.

Na sala de reuniões do coletivo, três telas de televisão mostram as imagens de 35 câmeras espalhadas por uma área de 10 hectares. Outra televisão, desligada, denuncia o objetivo de instalação de mais câmeras. Segundo Salas, quando um ilícito é observado, imediatamente são acionados os moradores mais próximos, por rádio, para impedir a ação criminosa. O Panal 2021 é dono da Rádio Arsenal FM, está criando um canal local de televisão e montou uma estrutura de produção e de serviços para a comunidade, graças ao financiamento a fundo perdido do governo.

Seu espaço comum virou um canteiro de obras. Um ginásio de esportes começou a ser erguido, no valor de US$ 1 milhão, com recursos do Ministério para as Comunas. O ministério de Turismo garantirá a construção de uma pousada. Haverá ainda um salão cultural e está em andamento a reforma de uma piscina e a finalização de uma fonte de água, com uma estátua colorida de Chávez no centro. Com US$ 2 milhões do Ministério de Ciência e Tecnologia, o Panal vai gerir linhas de internet.

A sustentação desse coletivo não vem apenas do governo ou da doações de parcelas dos salários de seus militantes, como Salas o faz voluntariamente. O Panal 2021 montou uma padaria popular, uma fábrica de tijolos e blocos e uma empacotadora de açúcar. Não se tratam de projetos cooperativos, mas de pequenas empresas pertencentes ao coletivo.

A padaria abriu em 2003, graças ao financiamento da prefeitura metropolitana de Caracas, e sua ação social se restringe ao fato de vender os pães a preços bem mais baixos do que nos mercados. O lucro fica com o Panal 2021. “A ideia era criar um meio de produção para ajudar e financiar os companheiros na luta”, afirmou o gerente Mário Huceta, de 25 anos, que recebe um salário mínimo (US$ 70, pelo câmbio paralelo) por mês.

Tudo o que sabemos sobre:

Caracaschavismocoletivos

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.