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Comediante americano recusa fazer piadas após massacre na Carolina do Sul

Jon Stewart, um dos mais respeitados apresentadores dos EUA comentou em seu programa "Daily Show", no canal Comedy Central, o caso em Charleston e criticou a forma como os problemas raciais são tratados no país

Redação Internacional

19 de junho de 2015 | 12h42

Na noite de quinta-feira, 18, o comediante americano Jon Stewart, um dos mais respeitados do país, aproveitou a introdução de seu programa “Daily Show”, no canal Comedy Central para comentar o massacre na Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel, em Charleston, na Carolina do Sul, e explicar porque não faria piadas sobre aquele ou qualquer outro assunto.

“Eu tenho um trabalho, que é bem simples”, disse Stewart. “Pela manhã, vejo os noticiários e escrevo piadas sobre o que está acontecendo. Mas hoje eu não fiz o meu trabalho, me desculpem. Não tenho nada para vocês em termos de piadas ou de sons em razão do que aconteceu na Carolina do Sul.”

Na sequência, Stewart fez uma longa crítica, em tom sério, sobre os frequentes casos de ódio que acontecem no país, destacando a “ferida aberta” que ainda existe sobre a relação entre brancos e negros.

Veja abaixo o discurso de Stewart (em inglês):

Confira a transcrição da crítica do comediante:

“Honestamente, não tenho nada além de tristeza nessa nova oportunidade em que temos de revisitar o abismo da violência depravada que nós causamos a nós mesmos e o nexo de uma ferida racial aberta que não cicatriza, apesar de fingirmos que ela não existe.

Estou confiante, porém, que, reconhecendo esta questão, ao encará-la e vê-la como ela realmente é, nós ainda não vai fazer absolutamente nada. Sim. Somos assim.

E é isto que me deixa louco. Não quero entrar na discussão política sobre armas e essas coisas. Mas o que me intriga é a disparidade na resposta quando pensamos nos estrangeiros que podem nos matar e em nós mesmos (americanos) nos matando.

Se isso tivesse sido o que nós pensamos que era o terrorismo islâmico, se encaixaria – nós invadimos dois países e gastamos trilhões de dólares e milhares de vidas americanas e agora controlamos máquinas voadoras não tripulados de morte em cinco ou seis países diferentes, tudo para manter os americanos seguros. Temos de fazer tudo o que pudermos. Nós torturamos pessoas. Temos de fazer tudo o que pudermos para manter os americanos seguros.

Nove pessoas foram mortas a tiros em uma igreja. “Ei, o que você vai fazer? Louco, é louco, certo?” Essa é a parte que eu não posso, definitivamente, concordar e vocês sabem disso. Você sabe que essa história está seguindo pelo mesmo caminho. “Esta é uma tragédia terrível.” Eles já estão até utilizando a linguagem sutil de falta de esforço para justificar. Este é um ataque terrorista. Este é um ataque violento contra a Igreja Emanuel na Carolina do Sul, que é um símbolo para a comunidade negra. Esta igreja tem resistido naquela parte de Charleston a cento e tantos anos e foi atacada violentamente muitas vezes, como muitas igrejas negras foram.

Ouvi alguém nos noticiários dizer: “A tragédia visitou esta igreja”. Este não foi um tornado. Foi um racista. Foi um cara com um brasão da Rodésia na blusa. Sabe, a ideia aqui – eu odeio até mesmo usar esse trocadilho -, mas este é um caso preto no branco. Não há nenhuma nuance aqui.

E nós vamos continuar fingindo como: “Eu não entendo. O que aconteceu? Esse cara perdeu a cabeça”. Mas estamos envoltos nesta cultura neste país e nos recusamos a reconhecer isso, e eu não posso acreditar como as pessoas estão se esforçando para diminuir o que realmente aconteceu.

Na Carolina do Sul, as estradas nas quais os negros dirigem têm o nome de generais confederados que lutaram para evitar que os negros fossem capazes de conduzir livremente nelas. Isso é loucura. Isso é propaganda racial. Isso é, não podemos permitir isso, sabe?

Nove pessoas foram baleadas em uma igreja negra por um cara branco que os odiava, que queria começar algum tipo de guerra civil. A bandeira confederada voa sobre Carolina do Sul, as estradas são nomeados em homenagem a generais confederados, e o cara branco se sente como se o seu país estivesse sendo tomado dele.

Estamos trazendo as tragédias para nós mesmos. E essa é a questão. Al-Qaeda, todos esses caras, EI, eles não m**** nenhuma em comparação com os danos que, aparentemente, podemos fazer a nós mesmo, frequentemente.

Assim, nossa convidada desta noite é uma pessoa incrível que sofreu um violência indescritível por extremistas, e sua perseverança e determinação em continuar é uma inspiração incrível. E para ser bem honesto com vocês, eu não acho que há qualquer outra pessoa no mundo que eu gostaria de conversar hoje à noite mais do que a Malala. Então é isso que nós vamos fazer. E desculpe por não fazer piadas.

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