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Correspondente do ‘Estado’ em Israel em 1972 relembra atmosfera no país logo após ataque terrorista em Munique

Redação Internacional

26 Julho 2012 | 03h06

Por Gabriel Toueg

TEL-AVIV – O jornalista Nahum Sirotsky, ainda em atividade aos 86 anos, era o correspondente do Estado em Israel na primeira metade da década de 1970. Ele assinava no jornal com o pseudônimo “Nelson Santos”, porque também colaborava, na época, com o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. Ainda em Israel, o jornalista colabora com veículos da imprensa brasileira, como o jornal Zero Hora.

No Estado, Sirotsky foi o autor de um texto em que comenta o terrorismo. “Apesar de ser um veterano observador de guerras locais, sempre me surpreendo com a inútil crueldade dos terroristas”, escreveu, sob o título “Terror, arma trágica e inútil”. O texto acompanhava a manchete de 6 de setembro de 1972, dia seguinte ao massacre dos atletas israelenses em Munique: “Israelenses chacinados em Munique” (veja abaixo).

Em entrevista esta semana ao Estado, Sirotsky narrou o clima em Israel na manhã seguinte ao atentado ocorrido na Alemanha durante as Olimpíadas de 1972. “Faz muito tempo, mas não me esqueço que a população estava pronta para qualquer ação de vingança (de Israel), qualquer uma. O ambiente era de imensa tristeza e frustração”, conta.

ACERVO: Israelenses chacinados em Munique
Manchete do ‘Estado’ na manhã seguinte ao massacre em Munique: ‘Israelenses chacinados’

Resposta. Sirotsky também escreveu, quatro dias depois do ataque em Munique, o texto “A represália não causou em Israel qualquer surpresa”. No texto, que acompanhava outras histórias sobre o atentado e sobre a reação de países como o Egito – que, segundo matéria no jornal, apoiou os terroristas -, Sirotsky descrevia como “anticlimático” um ataque de Israel contra “bases de terroristas” instaladas no Líbano e na Síria. “Se dependesse apenas do clima que se vive em Israel, teria ocorrido há muito mais tempo”, escreveu o jornalista em 1972.

Segundo o relato à época, “a lembrança do crime de Munique está presente (em Israel) e ele é um crime grande demais. Dificilmente o governo poderá evitar uma resposta militar dramática, feroz, violenta”. Sirotsky também reproduzia uma declaração do então ministro de Relações Exteriores de Israel, Abba Eban, “conhecido como moderado”, como relatou o jornalista: “Temos que acabar com essa escória humana”.

No final do texto, Sirotsky escreve: “Não será exagero afirmar que o atentado de Munique criou uma nova situação altamente crítica e delicada no Oriente Médio. Os próximos dias – ou as próximas horas, talvez – poderão trazer algumas surpresas. E estas – sejam quais forem – certamente não serão agradáveis para os que se rejubilaram com a chacina dos integrantes da delegação olímpica de Israel na Alemanha”.

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As notas de ‘Nelson Santos’, pseudônimo de Sirotsky, no ‘Estado’ de 6 e 9 de setembro de 1972

A resposta de Israel veio na forma de uma operação apelidada de “Ira de Deus”. A inteligência localizou e assassinou cada um dos envolvidos diretamente ou no planejamento do atentado. “Foi a inspiração para uma tática que vem sendo adotada até agora, de tentar acertar diretamente o culpado por qualquer ação”, explica Sirotsky.

Cobertura ao vivo. A maioria dos filmes sobre o massacre de Munique mostra imagens da cobertura feita, ao vivo, pela rede de TV americana ABC. O jornalista Jim McKay, que entre 1961 e 1998, foi apresentador no canal do programa Wide World of Sports, foi escolhido, na ocasião, para dar as informações, em tempo real, sobre as negociações entre os terroristas do Setembro Negro e as autoridades alemãs. McKay estava em seu único dia de folga durante os Jogos quando os atletas foram atacados, mas ficou no ar pela ABC durante 14 horas, sem qualquer intervalo. A transmissão dos acontecimentos levou 16 horas.

Após a tentativa frustrada de resgate dos esportistas, McKay concluiu a transmissão dizendo: “Quando eu era criança, meu pai costumava dizer que ‘as nossas maiores esperanças e os nossos piores medos raramente se realizam’. Nossos piores temores se concretizaram esta noite. Já disseram que havia 11 reféns; dois foram mortos em seus quartos na manhã de ontem, nove foram mortos no aeroporto hoje à noite. Estão todos mortos“. Assista abaixo a um filme (em inglês) sobre a cobertura feita por McKay.