Cuba e o enigma dos ‘ataques acústicos’ contra diplomatas americanos
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Cuba e o enigma dos ‘ataques acústicos’ contra diplomatas americanos

Cenário atual é digno de filme de espionagem, alimentando rumores e evocando lembranças da época da Guerra Fria

Redação Internacional

27 Setembro 2017 | 16h04

HAVANA – O ainda não explicado caso dos “ataques acústicos” em Cuba contra diplomatas dos EUA, que tem prejudicado as relações bilaterais entre os dois países há mais de nove meses, parece estar longe de acabar, já que as diferentes pistas levam a becos sem saída. O cenário é digno de um filme de espionagem, que alimenta rumores e evoca lembranças da época da Guerra Fria.

Os primeiros fatos suspeitos foram reportados no fim de 2016, mas o governo americano esperou até agosto deste ano para falar de misteriosos “sintomas físicos” observados em vários funcionários da embaixada dos EUA em Cuba (Foto: EFE/Alejandro Ernesto)

Os primeiros fatos suspeitos foram reportados no fim de 2016, mas o governo americano esperou até agosto deste ano para falar de misteriosos “sintomas físicos” observados em vários funcionários da embaixada dos EUA em Cuba (Foto: EFE/Alejandro Ernesto)

Incidentes

Os primeiros fatos suspeitos foram reportados no fim de 2016, mas o governo americano esperou até agosto deste ano para falar de misteriosos “sintomas físicos” observados em vários funcionários da embaixada dos EUA em Cuba.

Alguns sofreram “enxaquecas e náuseas”, mas também “pequenas lesões cerebrais de origem traumática e perda definitiva de audição”, revelou depois a diplomacia americana. Até o dia 14 de setembro, foram 21 as pessoas afetadas, com o último “incidente” registrado em agosto, segundo Washington.

Do lado do Canadá, uma fonte próxima à embaixada detalhou, sob condição de anonimato, que mais de cinco famílias foram afetadas, incluindo várias crianças, mas que “nenhum caso grave” foi reportado até o momento.

Funcionários americanos disseram a jornalistas que suspeitam do uso de dispositivos acústicos de origem desconhecida, com o objetivo de prejudicar a “integridade física” dos diplomatas. Havana negou formalmente qualquer implicação e iniciou uma investigação sobre o caso.

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No dia 23 de maio, os EUA tomaram a primeira medida de represália e resolveram expulsar dois diplomatas cubanos. Washington não considera Cuba culpada, mas a julga responsável por ser o país anfitrião.

O secretário de Estado, Rex Tillerson, falou sobre um possível fechamento da embaixada em Cuba. Como resposta, Havana alertou contra qualquer “politização” do caso. Na terça-feira 26, Tillerson se reuniu com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, com quem teve uma discussão “firme e franca” sobre o assunto, indicou o Departamento de Estado, sem dar mais detalhes.

Ondas nocivas

A investigação, entretanto, não produziu resultados, mas com “tantas famílias afetadas ao mesmo tempo, não é banal. Não pode ser azar”, afirmou uma fonte próxima à embaixada canadense.

A emissão dirigida de ondas nocivas de um dispositivo detectável é “totalmente possível, de um ponto de vista técnico”, garantiu Denis Bedat, especialista em bioeletromagnetismo. “As ondas ultrassônicas, que estão além da capacidade acústica do ser humano, podem se difundir com um amplificador. O dispositivo não tem de ser grande e pode ser ativado dentro ou fora de uma casa”, explicou ele.

Bedat deu como exemplo o Active Denial System (ADS), um dispositivo antidistúrbio criado nos EUA, que permite dirigir ondas eletromagnéticas até as pessoas escolhidas, causando-lhes uma sensação de calor insuportável.

Pesquisas e rumores

Segundo fontes americanas citadas por meios de comunicação locais, o presidente cubano, Raúl Castro, informou ao chefe da missão de Washington a sua perplexidade com relação ao assunto e autorizou o FBI (Polícia Federal americana) e a polícia canadense a realizar investigações em Havana.

Muitos observadores duvidam que Havana tenha se arriscado em tais ações no fim de 2016, quando as relações entre os antigos inimigos de Guerra Fria estavam em pleno auge. Logo depois, acabaram se deteriorando com a chegada ao poder do republicano Donald Trump.

O mesmo acontece com o Canadá, principal fornecedor de turistas a Cuba. Segundo os diplomatas canadenses, Ottawa não vê como suspeitos os altos funcionários cubanos.

As especulações surgem dos dois lados. Alguns apontam a iniciativa de agentes cubanos desertores, outros a um terceiro país interessado em prejudicar as relações entre Cuba e EUA, como Rússia ou Coreia do Norte.

Mas a hipótese mais recorrente aponta para a possível incidência de um sistema de audição defeituoso ou mal controlado. Esta teoria é rejeitada por especialistas que enfatizam que um sistema de escuta não está projetado para a difusão. Segundo a imprensa americana, os investigadores do FBI não encontraram evidências durante as buscas realizadas nos locais apontados pelas vítimas.

“Não temos resposta definitiva sobre a origem ou a causa dos incidentes”, reconheceu na terça-feira um responsável do Departamento de Estado, enquanto Havana anunciou ter tomado “medidas adicionais de proteção aos diplomatas americanos e suas famílias”. No entanto, “a questão é que há pessoas que não estão bem, e ainda não sabemos o motivo”, lamentou a fonte próxima à embaixada canadense. / AFP

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