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Cuba perde seu maior parceiro desde a URSS

Redação Internacional

05 de março de 2013 | 19h02

Por Guilherme Russo

A Venezuela é a maior parceira de Cuba, com laços socioeconômicos que incluem a venda facilitada para a ilha de até 115 mil barris de petróleo por dia em troca de colaboração nas áreas de saúde pública, pesquisa e esportes. Desde 1999, quando Hugo Chávez assumiu a presidência, Caracas tem substituído a ajuda que uma vez a União Soviética proveu ao regime castrista, após o governo cubano alinhar-se ao Kremlin, em 1961.

Estima-se que o chavismo gaste uma média de US$ 3,5 bilhões anualmente em Cuba. Em 2010, segundo dados oficiais de Havana, o comércio entre os países movimentou US$ 6 bilhões, com a balança comercial favorável a Caracas, que exportou US$ 4,3 bilhões para Cuba e comprou da ilha US$ 1,7 milhão.

Neste ano, os países afirmam manter uma cooperação na ordem de US$ 1,6 bilhão, que inclui 47 projetos em áreas como educação, agricultura, saúde e esportes – além de financiamento para empresas binacionais.

Analistas costumam dividir opiniões sobre o futuro de Cuba sem o chavismo para subsidiar o socialismo instaurado por Fidel Castro. Para alguns, sem a ajuda da Venezuela, os cubanos passariam por um novo “período especial” – eufemismo usado para denominar a profunda recessão provocada pela ausência da ajuda soviética, que fez desaparecer 85% da receita externa cubana na década de 90 e piorou significativamente o padrão de vida da população da ilha. Sem o dinheiro de Moscou, o Produto Interno Bruto (PIB) de Cuba caiu 38% entre 1990 e 1993.

Entre 2005 e 2010, o chavismo gastou pelo menos US$ 34 bilhões com Havana. “A centralização do poder que Chávez exerceu em seu país faz com que sua doença representasse um perigo muito grande para Cuba”, diz o economista Oscar Espinosa Chepe, que integrou o Partido Comunista Cubano por quase 20 anos, antes de passar para a dissidência. “A ausência da ajuda de Caracas levará a situação social de Cuba a um estado de caos.”

Espinosa explica que “a ajuda da Venezuela é fundamental” para a manutenção do socialismo cubano.
“Até a década de 90, ainda tínhamos a indústria açucareira, mas até isso se perdeu. Agora, somos uma economia totalmente parasitária.”

Em outubro de 2000, os governos de Caracas e Havana firmaram o chamado Convênio Integral de Cooperação, que, num primeiro momento, determinou a exportação de 53 mil barris de petróleo por dia da Venezuela para Cuba com o pagamento facilitado. Em 2005, o número de barris importados por Cuba diariamente foi para 90 mil.

A contrapartida do regime castrista veio na forma do envio de 40 mil médicos para os programas de saúde pública chavistas. Cuba ainda oferece agentes de segurança ao chavismo, que cuidam das autoridades mais importantes do governo de Caracas, além de colaborar com as Forças Armadas venezuelanas, principalmente no setor de inteligência do regime. Em dezembro de 2004, Hugo Chávez e Fidel Castro assinaram uma declaração conjunta contra o chamado “neoliberalismo”, que os líderes qualificaram como “um mecanismo para aumentar a dependência e a dominação estrangeira”.

“A Venezuela constitui hoje para Cuba o que a União Soviética foi por muitos anos. Mas, se a ajuda (de Caracas) cessar neste momento, as consequências serão muito piores, pois a infraestrutura cubana está em piores condições agora”, diz Espinosa. O economista afirma que “a indústria de Cuba está produzindo, em termos de volume, menos da metade do que produzia em 1989”. “O transporte também está em colapso. A agricultura importa 80% dos alimentos.”

Diante de uma eventual retirada da ajuda venezuelana, Espinosa alerta para uma possível repetição da crise energética ocorrida durante o período especial, quando, além da escassez de produtos básicos, os cubanos enfrentavam apagões de até 16 horas diariamente. “Como Cuba poderia pagar preços do mercado internacional pelos 100 mil barris de petróleos diários (que importa da Venezuela)?”, questiona, explicando que o combustível serve às usinas termoelétricas e aos geradores menores que produzem energia para os cubanos.

Capitalismo

Outros especialistas consideram que a ausência dos subsídios de Caracas estimularia o presidente Raúl Castro a aprofundar as reformas que ele tem aplicado em seu país desde 2010, com a intenção de “modernizar” a economia e a sociedade cubanas para aproximá-las do livre mercado. “Várias outras nações pretendem investir ou ampliar seus investimentos em Cuba. O governo (de Havana) terá de acelerar as medidas de abertura se a Venezuela retirar a sua ajuda. Se o regime cubano der garantias aos investidores de que não voltará atrás nessas mudanças, o país poderá até obter um crescimento econômico real”, diz o economista venezuelano Robert Bottome.

O analista diz, porém, que no curto prazo nenhuma alteração radical na relação entre os países deverá ocorrer, pois, antes de partir para sua mais recente cirurgia em Havana, Chávez indicou Nicolás Maduro, seu vice, para suceder-lhe.
“O presidente conclamou o povo a votar em seu sucessor”, disse Bottome, afirmando que a popularidade do chavismo garantirá sua manutenção mesmo diante da ausência do líder bolivariano. No entanto, segundo o especialista, mesmo que Maduro seja eleito presidente, no longo prazo, a Venezuela não deverá conseguir manter sua ajuda a Cuba, pois tende a enfrentar uma “grave recessão”.

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