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De como Armandão, em Itu, acabou com a crise dos mísseis

Redação Internacional

29 de setembro de 2012 | 17h08

Crise dos Mísseis+50

Roberto Muniz

Nunca a humanidade passou tanto medo quanto naquele outubro de 1962.

Nikita Khruchev tinha instalado mísseis nucleares em Cuba. John Kennedy não gostou. Cercou a ilha de Fidel com navios e deu o ultimato: ou vocês tiram ou tiro eu.

Pela primeira vez o mundo sentia de verdade que guerra nuclear não era só conversa de apocalípticos – estava ali bem perto, dependendo só de alguém apertar o botão.

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Durante uma semana, a pergunta que todos faziam era: quem vai afinar, John ou Nikita? E a pergunta que ninguém queria fazer era: e se nenhum dos dois afinar?

Itu entrou na guerra. Do coreto do Largo da Matriz, estrategistas notívagos remanejavam forças, montavam cenários, faziam previsões: Kennedy recua, não vai arriscar o ouro capitalista; Khruchev foge, não tem bala para enfrentar os EUA; Fidel manda tirar os mísseis (quem tem Cuba, tem medo).

E por aí seguia. Numa noite em que parecia que os mísseis estavam quase cruzando os céus ituanos rumo a Moscou, entrou em campo Armando Cordeiro, o saudoso Armandão.

Parênteses. Bon vivant, gozador, pegador, cantor, filósofo, Armandão era unanimidade ituana. Nunca se soube de alguém que não gostasse dele. Jamais foi visto por mais de alguns segundos sem rir. Fazia as pessoas rirem só de olhar para elas. Como não trabalhava, tinha tempo de enroscar em cada esquina para prosear. Parecia um pouco com Peter Ustinov, o Nero do filme Quo Vadis. Mas ninguém mais anti-Nero que Armandão: era totalmente do bem. Além disso, queimar Roma daria trabalho…

Voltemos à noite decisiva na praça. Quando os estrategistas do coreto concluíram que a guerra era inevitável e já estavam prestes a procurar abrigos antinucleares, ouviu-se uma voz poderosa, que lembrava Orson Welles narrando sua famosa invasão marciana: “O comandante Armandão ordena: matem todos! Não façam prisioneiros! Não poupem ninguém!”

Fez-se um longo segundo de estupefação ante aquele nonsense belicista – até que “americanos”, “russos” e “não alinhados” explodiram numa desafogadora gargalhada tripartite. O que se seguiu foi um ansiado alívio geral após dias de tensão. A paz mundial estava restaurada. De Itu, Armandão conseguira o que a ONU não havia conseguido. A Guerra Fria nunca mais seria a mesma.

O resto é história. Khruchev retirou os mísseis, Kennedy chamou de volta os navios, Fidel fez discurso. Mais tarde viria a perestroika, o Muro cairia. De repente, todo mundo só queria ficar rico.

Dizem que a Guerra Fria acabou porque as superpotências entenderam que não haveria vencedores. Pode ser. Mas se não fosse Armandão aquela noite na praça…

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