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Diário do Haiti: Com homicídios em leve alta, Haiti teme violência após saída de tropa brasileira

ONU vê ambiente de segurança ‘frágil’, o que faz haitianos se preocuparem com onda de criminalidade a partir do fim de missão de paz; casos de homicídio tiveram aumento entre março e junho, na comparação com o mesmo período de 2016

Redação Internacional

30 Agosto 2017 | 05h00

Luciana Garbin, enviada especial / Porto Príncipe
Jamil Chade, correspondente / Genebra
O tradutor Joseph Miguel Lessage, de 35 anos, já decidiu: vai embora do Haiti um mês depois das tropas brasileiras. Em 2014, ele levou três tiros no abdome após uma cerimônia militar em Croix-des-Bouquets, onde morava. Bandidos acharam que ele era informante dos soldados.

Socorrido num hospital argentino, foi transferido para a República Dominicana dias depois. Para lá são mandados casos haitianos mais graves. “Teve uma entrega de medalhas e militares me levaram para casa. Três dias depois, fui baleado.”

O caso de Lessage por pouco não entra nas estatísticas de criminalidade do país que amanhã verá o fim das atividades operacionais da Minustah, missão de estabilização da ONU. Algumas delas fazem parte do relatório apresentado pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ao Conselho de Segurança da entidade. Nele, o português se diz “contente” com a “transição de segurança” no Haiti, que indica que o país está “pronto para lidar com desafios ao seu ambiente estável de segurança, ainda que frágil, sem a presença militar”, mas aponta para crescimento de homicídios.

De 1.º de março a 30 de junho, foram registrados 356 assassinatos, a grande maioria (78%) na capital, Porto Príncipe. No mesmo período de 2016, haviam sido 345. Segundo o documento, 2,3 milhões de haitianos também são alvo de “severa insegurança alimentar” e precisam de “ajuda imediata”. Outros 143 mil sofrem de “má nutrição aguda”. Desde o furação Matthew, em 2016, 46,6 mil pessoas continuam em abrigos improvisados.

Alguns indicadores são positivos. Caiu o número de policiais mortos – de 10, em 2016, para 7 – e os sequestros passaram de 19 para 9 casos. Já os estupros somaram 188 casos, diante de 196 no mesmo período de 2016.

O número de protestos públicos também caiu, de 382 para 288. Mas 26% foram violentos. Quase metade ocorreu na capital. “A grande maioria foi causada por insatisfações socioeconômicas, relacionadas com educação, saúde, trabalho, custo de vida e danos causados pela chuva”, informou Guterres.

Em 7 de abril, houve um ataque contra um comboio presidencial. “Apesar de não ter havido vítimas, as circunstâncias ainda precisam ser esclarecidas por investigações em curso pela Polícia Nacional.

O incidente alimentou percepções de aumento da insegurança”, escreveu o secretário-geral da ONU. Um mês depois, o secretário de Estado para Segurança Pública, Jeantel Lessage, foi substituído. Ele era o chefe do Partido Consortium, envolvido num escândalo. Um dos senadores, Guy Philippe, cumpre 9 anos de prisão nos EUA por tráfico de drogas.

Militares brasileiros explicam que tropas são necessárias quando há instabilidade institucional e é necessário lançar mão do componente militar para que as instituições possam funcionar. Para eles, não é mais o caso do Haiti, que agora precisa de segurança pública.

Para Lessage, que traduz o país aos estrangeiros desde que a Minustah começou, em 2004, o Haiti teve melhoras nesses 13 anos. “Antes tinha muito sequestro, muito corpo na rua”, lembra. “A presença da Minustah vinha impedindo bandidos de atuar. Agora acho que a situação vai se complicar de novo. O povo não gosta da Polícia Nacional. É uma bomba-relógio.”

Formado em Letras e Informática, ele dava aulas de inglês e espanhol em três escolas quando soube que a missão procurava tradutores. O salário oferecido em dólares pela ONU era quase dez vezes mais do que ele ganhava. Após trabalhar com japoneses, jordanianos, peruanos e argentinos, ele está há quase sete anos com os brasileiros.

É ele quem traduz as conversas e entende o que gritam alguns haitianos quando os comboios da ONU passam. Há cumprimentos, mas também xingamentos e frases como Ale Lakay – “Vão embora” em crioulo. “Mas nós, haitianos, gostamos dos brasileiros”, garante. “Principalmente por causa do futebol.”

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