Diário do Haiti: Durante patrulha no blindado, acenos e xingamentos
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Diário do Haiti: Durante patrulha no blindado, acenos e xingamentos

'Não é fácil para um país soberano ter uma tropa de outro país', comenta coronel

Redação Internacional

28 Agosto 2017 | 08h00

Luciana Garbin, Enviada Especial / Porto Príncipe

“Unidos pela paz: Brabat!” O slogan do batalhão brasileiro da missão de paz no Haiti é repetido sempre que uma patrulha entra ou sai da base militar em Porto Príncipe. No urutu branco do Exército brasileiro com as letras UN, de Nações Unidas (em inglês), vão um motorista, um militar na cabine de observação, outro militar com um fuzil na mão, o coronel Sandro Vasconcelos, chefe da Comunicação Social do Brabat, e a equipe do Estado.

A patrulha será por um bairro vizinho à base, chamado Tabarre. É uma região de classe média, com algumas construções recentes e a grande maioria das casas de tijolo aparente. A falta da pintura tem um motivo, explica o coronel. Em Porto Príncipe, quem tem casa pintada paga mais imposto. É como se o IPTU fosse mais barato para imóvel sem reboque.

A partir de sexta-feira, os blindados brasileiros não poderão mais circular. O controle do país ficará a cargo da Polícia Nacional Haitiana (HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO)

A partir de sexta-feira, os blindados brasileiros não poderão mais circular. O controle do país ficará a cargo da Polícia Nacional Haitiana (HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO)

Assim como outros bairros da capital haitiana, Tabarre também tem problemas de iluminação pública. Só há oferta de luz elétrica três dias por semana. Nos outros, os moradores precisam se virar com geradores, oferecidos em mercados e outdoors de Pétion Ville, o distrito mais rico do país.

Por estar perto da base da Minustah, a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti, o bairro de Tabarre tem patrulhas diárias. É uma questão de segurança do entorno, explicam os brasileiros. Mas hoje em dia é raro o uso de blindados – geralmente, o patrulhamento é feito a pé ou em viatura.

Para acompanhar o trajeto, coronel Vasconcelos pede à equipe do Estado que use capacete azul, objeto de proteção que acabou se tornando um dos símbolos da missão de paz. Mas dispensa o uso do colete à prova de balas. Diferentemente de algumas áreas da capital haitiana, como Cité Soleil, Tabarre é considerada uma área verde, de baixo risco.

Por determinação da ONU, Porto Príncipe foi dividida em três zonas – vermelhas, amarelas e verdes – segundo o grau de periculosidade. Apesar da pacificação, Cité Soleil é vermelha e requer o que os militares chamam de “tudão”: capacete, colete e armamento – leia-se fuzil.

A circulação do urutu parece não chamar a atenção da maioria dos pedestres em Tabarre. Há 13 anos, os haitianos convivem com os blindados brancos com a sigla das Nações Unidas. Uns poucos se manifestam quando o veículo passa. Enquanto um homem repete o gesto de joia feito por um dos militares, outro grupo dá tchau. Alguns metros adiante, na avenida que conduz à base, uma jovem levanta o dedo médio para xingar os brasileiros. “Não é fácil para um país soberano ter uma tropa de outro país”, comenta o coronel Vasconcelos. “Temos de ter esse entendimento. É só a gente se colocar na posição deles.”

A partir de sexta-feira, os blindados brasileiros não poderão mais circular. O controle do país ficará a cargo da Polícia Nacional Haitiana e os urutus serão embarcados num navio da ONU com destino ao Rio de Janeiro.