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Diário do Haiti: ‘Só um novo Plano Marshall resolveria’, diz general brasileiro

Comandante da missão de paz diz que Haiti precisaria de mobilização como a que reestruturou a Europa no pós-guerra

Redação Internacional

30 Agosto 2017 | 05h00

Luciana Garbin, enviada especial / Porto Príncipe

 

Há dois anos anos e meio no comando da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), que desde 2004 chegou a reunir tropas de até 23 países, o general brasileiro Ajax Porto Pinheiro afirma que apenas um plano de recuperação social e econômica como o feito na Europa Ocidental após a 2.ª Guerra poderia resolver completamente o problema do país mais pobre da América. “Só se tivesse um Plano Marshall no Haiti. Mas não tem.”

Para o general, a melhor definição do país hoje é a de um pequeno avião que foi preparado para voar. “Esse avião agora pode tanto decolar quanto taxiar, ir para direita e se quebrar. O Haiti não está 100%. Mas se fôssemos esperar para o Haiti estar preparado talvez precisássemos ficar aqui duas décadas.”

Vários fatores reforçam a imprevisibilidade em relação ao futuro haitiano, na avaliação do force commander, como é chamado por chefiar missão de paz da ONU. O primeiro é a grande quantidade de grupos políticos que periodicamente entram em choque – em alguns casos, suspeita-se, com apoio de criminosos. O segundo são os grandes desastres naturais.

Vem um furacão, a primeira coisa que as pessoas perdem é o meio de subsistência. Aí vão para a rua protestar e começa aquele rastilho de pólvora. A sequência de violência pode se tornar incontrolável.” A persistência da miséria e a possibilidade de reagrupamento de gangues desbaratadas pela Minustah são outros fatores.

Mas, na opinião do militar, o país hoje está melhor. Ele lembra que, quando a Minustah chegou, em 2004, o Haiti estava à beira de uma guerra civil, com cidades do interior tomadas por bandidos e grave crise política. Agora, com a situação mais estável, a ONU tem de concentrar esforços e dinheiro em locais mais problemáticos, como alguns países da África.

“A ONU não veio para combater gangue em Cité Soleil”, afirma, referindo-se à favela pacificada no início da missão. “Não existe gangue do mundo que justifique gastar US$ 500 milhões por ano com uma missão de paz. Agora, já no fim, com redução do efetivo, o custo (da Minustah) chegava a US$ 400 milhões por ano.”

A atual missão será substituída por outra, com foco mais social e de segurança pública. Segundo o general, ficarão no Haiti sete tropas da polícia das Nações Unidas – de Ruanda, Bangladesh, Senegal, Nepal, Jordânia e duas da Índia. Serão apenas 150 policiais fardados, o que ele reconhece ser muito pouco, além de 300 civis.

“E em breve a Polícia Nacional do Haiti terá 15 mil homens, o que não é ideal, mas é aceitável. São 15 mil policiais que foram treinados, têm uma academia muito boa e até serviço de inteligência.”