Dinheiro da pirataria provoca inflação na Somália
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Dinheiro da pirataria provoca inflação na Somália

Robson Morelli

10 de janeiro de 2010 | 15h00

Piratas navegam no Índico, perto do porto de Eyl

Piratas navegam no Índico, perto do porto de Eyl. Foto: Reuters

Um terreno que há dois anos foi vendido pelo equivalente a US$ 12 mil hoje custa mais de US$ 20 mil. Por um bom par de sapatos é preciso pagar US$ 50, mais do dobro que
antes. A razão? Os piratas. A chegada de milhões de dólares em resgates alterou a vida nesta comunidade muçulmana na costa da Somália.

Os preços subiram e foi estabelecida uma clara diferença entre os ricos (os piratas) e os pobres (todos os demais). O estilo de vida dos piratas – com mansões, automóveis esportivos e drogas – irrita os líderes religiosos e os próprios habitantes do lugar.

“O uso de drogas como a maconha e o consumo de álcool, as relações sexuais e outras condutas reprováveis são agora a norma entre os piratas e isso causa transtornos sociais”, comentou o xeque Ahmed, imã de uma mesquita na cidade de Galkayo. “Isso tudo nos preocupa muito mais que o risco que os piratas representam para os barcos estrangeiros e suas tripulações”, disse.

No final do ano passado, um bando de piratas teria cobrado US$ 3,3 milhões para libertar os 36 tripulantes de um navio espanhol, que ficaram sequestrados por mais de seis semanas. Esse dinheiro chega á comunidade através de presentes, empréstimos e pagamentos de dívidas a familiares, amigos e instituições.

A força naval da União Europeia afirma que atualmente os piratas detém em seu poder 11 barcos e 264 tripulantes na costa da Somália. Não existem dúvidas de que cobrarão bastante dinheiro para soltar as tripulações.

“Circula muito dinheiro e isso afeta todo mundo, direta ou indiretamente”, disse Haji Said, dono de um hotel. Em Bossaso existe apenas uma rua pavimentada, na qual ficam os hotéis, as lojas e as construções mais novas. A rua é percorrida por automóveis de luxo, cujos ocupantes escutam música somali, norte-americana e indiana no volume máximo.

Os preços de roupas, calçados e cosméticos estão subindo, diz o comerciante Anshur Kamil. Os piratas compram fiado. Os que esperam ganhar dinheiro com algum sequestro compram mercadorias a crédito, a preços inflados, e pagam quando recebem o resgate, afirmam os moradores.

Os piratas pagam em dólares americanos e não discutem os preços, afirmou Khadra Abdullahi, dono de uma loja em Bossaso, uma cidade costeira no norte da Somália, no Golfo de Áden, em frente ao Iêmen. “Às vezes deixam o troco, o que significa que isso não significa nada para eles”. Se um aldeão pensa que o preço de uma mercadoria é muito alto para ele, diz ao comerciante: “não somos piratas”, conta Abdullahi.

Quanto mais próximo fica uma loja de um covil de piratas, mais altos são os preços das mercadorias. Num povoado vizinho a Bossaso, Eyl, uma xícara de chá custa três vezes mais que em Bossaso. Em Eyl os piratas pagam US$ 5 para que alguém engraxe seus sapatos, dez vezes mais que em Bossaso, diz o comerciante Hashim Salad.

Há dois anos, um adolescente de nome Adani vivia na rua em Bossaso. Hoje ele tem 19 anos, é pirata e dono de uma casa enorme. Ele diz que já participou de dois sequestros e ganhou US$ 75 mil.  “Se você não tem nada, é desprezado pelas pessoas. Se eles olham que você tem dinheiro, te respeitam”, afirmou Adani, que não deu o nome completo por temer represálias. “O próximo será meu último sequestro”, assegurou. “Sei que é algo muito arriscado, mas gosto deste jogo. Se as coisas acabam bem, eu me caso e deixo a pirataria”.

Roger Middleton, especialista em pirataria na organização Chatham House em Londres, disse que o pagamento médio pelo resgate de um barco passou de US$ 1 milhão para  US$ 2 milhões em um ano. Ele calculou que nos últimos dois anos a pirataria gerou na Somália mais de US$ 100 milhões.  “Tenho certeza que existe certo ressentimento com os piratas, pela maneira como eles se comportam e pelo seu estilo de vida. Eles não respeitam a tradição”, disse Middleton. Segundo ele, a maioria dos piratas ganham dezenas de milhares de dólares, não milhões, e os chefes são os que levam as somas maiores, gastas no exterior e não na Somália.

Clérigos e aldeões desaprovam o estilo de vida dos piratas. Os adolescentes dizem aos seus país que se dedicarão à pirataria se pais não deixarem que eles façam o que quiserem, comenta o ancião Suldan Mohamud Aw-nor. Os piratas praticamente compram suas mulheres. “Eles não perdem tempo conquistando mulheres, eles as seduzem com dinheiro”, afirmou Shamso Ahmed, dono de um salão de beleza. (Agência Estado e Associated Press)

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