Drama nas vinícolas chilenas
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Drama nas vinícolas chilenas

Redação Internacional

08 de março de 2010 | 00h09

Produtores de vinho se unem e preparam programa de gestão de crise, informa Roberto Godoy

Vinícula no Vale Colchagua: prejuízos (Foto: Reuters)

Vinícula no Vale Colchagua: prejuízos (Foto: Reuters)

“Nos faltam as pessoas, a comida e, sabemos agora, também o vinho”, lamenta o enólogo Esteban Calderón, especialista contratado da associação dos produtores da região de Maule, bem próxima do epicentro do terremoto que atingiu o Chile há uma semana.

Calderón deveria acompanhar o início da colheita da uva há cinco dias, mas o que encontrou nas adegas do Vale Central foi um cenário de devastação: “Grande parte dos estoques está perdida, as barricas se romperam, muito vinho escorreu pela terra.”

Os cortadores não conseguem chegar ao trabalho. Nas encostas, as parreiras – algumas delas com mais de um século -, desapareceram em vários pontos, tragadas pelas fendas que se abriram no solo ou soterradas sob deslizamentos mas, garante o especialista, “no campo o estrago foi menor que o esperado e talvez possa ser compensado pelo manejo das culturas que seguem intocadas”.

O enólogo acredita que a curto prazo o efeito será sentido no preço de venda dos rótulos mais sofisticados e caros, e na redução de oferta das marcas populares e baratas, “tudo depende dos estoques remanescentes que estão sendo contabilizados”. Esteban vai morar na Espanha por um ano, bolsista de um curso patrocinado pela Casa Domeq, mas teme pelo futuro: “Terei empregadores quando voltar?”, pergunta.

O problema maior é o colapso da infraestrutura. A vinícola mais conhecida do país, Concha y Toro, interrompeu o trabalho em todas as suas unidades. O fornecimento de energia elétrica só começou na quarta-feira. Na sexta-feira, as comunicações ainda eram precárias e o acesso por estradas continuava incerto, comprometido pela queda de pontes e pelo surgimento de fissuras nas pistas.

Fornecedores de rolhas, garrafas, máquinas e combustíveis permanecem parados. A sede financeira da indústria do vinho é Concepción, a segunda cidade do Chile e a mais atingida pelo terremoto. Essa semana os produtores dos seis vales que abrigam a vinicultura – Colchagua, Maipo, Casablanca, Maule, Curicó e Rapel – farão uma reunião para avaliar os danos e iniciar um programa conjunto de gestão de crise.

Desde 2005 a média anual da produção está sendo mantida em torno de 7,8 milhões de litros. Embora a demanda seja maior, essa é a forma encontrada para manter as cotações de mercado.  A qualidade da bebida é garantida pela combinação de três fatores naturais: a água do Rio Elque, o verão quente e úmido, consequência da proximidade do Oceano Pacífico, e o inverno frio e seco, determinado pela Cordilheira dos Andes. Os primeiros tinto produzidos no país foram enviados para a Espanha em 1554.  O vinho era bom, mas era pouco – assim, o lote inteiro acabou confiscado para uso exclusivo da corte. (Roberto Godoy)

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