As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Eleito, Piñera é criticado no Chile por lucrar com política

Robson Morelli

25 de janeiro de 2010 | 05h00

Reportagem de Gabriel Bueno da Costa, da Agência Estado

Sebastián Piñera teve uma semana atribulada. No último domingo, o empresário de centro-direita venceu as eleições presidenciais do Chile, encerrando uma hegemonia de duas décadas da coalizão de centro-esquerda da Concertação. No dia seguinte, recebeu em sua casa a presidente Michelle Bachelet, quando tomaram um cordial café da manhã, seguindo as tradições do país. No meio da semana, porém, Piñera já recebia duras críticas pela demora em se desfazer de milionários investimentos, que aliás valorizaram bastante durante a campanha e após sua eleição. Segundo analistas chilenos ouvidos pela Agência Estado, a suposta confusão entre as esferas pública e privada pode ser uma fonte de críticas ao líder eleito.

A fortuna de Piñera, de 60 anos, foi estimada em US$ 1 bilhão pela revista Forbes, em um ranking divulgado em novembro passado. Economista com doutorado em Harvard, ele foi um pioneiro do setor de cartões de crédito no país, é dono do mais popular time de futebol chileno, o Colo-Colo, de uma rede de TV e ainda tem uma fatia de 26% da companhia aérea LAN.

O fato de ele não ter deixado o controle de seus negócios antes das eleições, porém, tem resultado em fortes críticas. O ministro da Fazenda, Andrés Velasco, atacou a situação nesta semana, após o valor dos papéis de Piñera na Bolsa de Santiago subir mais de 130% desde as eleições (na campanha, já haviam ganhado outros 30%). O grupo de Piñera rebateu, garantindo que o líder eleito se desfará da maior parte de seus investimentos, inclusive da fatia na LAN, o mais breve possível.

A direita chilena está longe do poder há 20 anos, durante os quais a Concertação governou, desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Mais do que isso, desde 1958 a direita não ganhava uma eleição presidencial no país.

“O fantasma maior para Piñera não é Pinochet, mas sim ser comparado a Berlusconi”, afirma o cientista político Patricio Navia, em entrevista por telefone, referindo-se ao primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, várias vezes acusado de se valer da política para consolidar sua fortuna. Professor da Universidade de Nova York, Navia defende que o presidente eleito se livre logo de seus negócios, mas lembra que já houve acusações no passado de que Piñera teve problemas para separar as duas esferas.

“É péssimo que Piñera não tenha separado a política dos negócios”, concorda Mauricio Morales, professor de Ciência Política da Universidade Diego Portales, em Santiago, também por telefone. “Parece que ainda quer seguir como acionista do Colo-Colo”, critica. “Só o lucro com as ações nesse período paga toda a campanha eleitoral.”

MODERAÇÃO
Piñera venceu no domingo o segundo turno das eleições chilenas, batendo o ex-presidente Eduardo Frei (1994-2000). Mesmo com aprovação na casa dos 80%, Bachelet não conseguiu fazer seu sucessor. Os analistas ouvidos esperam um início de governo cauteloso, após Piñera assumir em 11 de março. A expectativa é a de que não haja mudanças radicais. “Trata-se da mesma rota, mas com um piloto diferente”, compara Navia. “A mudança será muito mais de ênfase que de profundidade.”

Morales também prevê cautela. “Não imagino grandes reformas no primeiro ano”, diz. Segundo ele, o esforço inicial deve se concentrar em um dos principais temas da campanha: o combate à violência e à corrupção. Além disso, Piñera prometeu manter o sistema de proteção social no país. Para mudanças mais profundas, porém, terá que negociar com o Congresso, onde não possui maioria.

O professor Carlos Huneeus, do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, diz que uma das primeiras medidas do novo governo será aprovar um bônus, que deve ser distribuído em março para um milhão de famílias. O projeto deve entregar 40 mil pesos chilenos (R$ 144) para os mais pobres, em uma ação social e de estímulo à economia. A previsão é que o dinheiro saia de uma parte da renda adicional ganha pelo país com a recuperação dos preços do cobre, segundo o site da campanha.

O Chile é o maior produtor mundial de cobre. Piñera prometeu, durante seu governo, fazer mudanças no comando da estatal Corporação Nacional de Cobre (Codelco) para torná-la mais dinâmica. Alterações mais profundas na Codelco, como uma privatização, porém, dependem da aprovação dos parlamentares, o que os especialistas consideram difícil de acontecer.

Os analistas preveem que o magnata faça um governo um pouco mais próximo do mercado, buscando reduzir impostos e dinamizar a economia chilena. A meta é voltar a crescer na casa dos 6%, após anos não tão favoráveis sob Bachelet, piorados pela recente crise internacional, que deve ter resultado em queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. “Com o Chile saindo da crise, Piñera deve conseguir uma recuperação do PIB”, prevê Morales. As dificuldades na economia, aliás, são vistas como fator importante para a derrota do grupo de Bachelet.

LUA-DE-MEL
Apesar das críticas aos negócios do presidente eleito, Morales acredita que nos primeiros quatro ou cinco meses deve haver um período de “lua-de-mel” entre os chilenos e Piñera  A tendência inicial é que a população espere alguns meses para então passar a avaliar mais criticamente as ações do governante, diz o professor.

No caso de Bachelet, porém, ocorreu o inverso. Um mês após assumir, ela já enfrentou sérios protestos de estudantes por melhorias no sistema de ensino, no que ficou conhecido como a “Revolta dos Pinguins”, em referência à roupa usada pelos alunos. Além disso, alterações no sistema de transportes da capital, na reforma chamada Transantiago, foram bastante criticadas. Morales acredita que, no caso do líder eleito, poderia haver tensão com os trabalhadores. “Piñera não tem muito boa relação com os sindicatos.”

No plano externo, a previsão é também de cautela. “Com a Venezuela, a relação não deve melhorar”, diz Huneeus. Nesta semana, Piñera criticou o presidente venezuelano, Hugo Chávez, “pela forma como pratica a democracia e pelo modelo econômico”. Chávez reagiu, pedindo que “o novo governo do Chile não se meta conosco”. Na opinião de Huneeus, Piñera deve também trabalhar para fechar novos acordos bilaterais de livre-comércio, perpetuando uma política já adotada pela Concertação.

Tudo o que sabemos sobre:

ChiledireitaSebastián Piñera

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: