As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Entrevista com Juan Manuel Santos

Paula Carvalho

20 de junho de 2010 | 07h00

Juan Manuel Santos já fala como fosse o novo presidente da Colômbia. Confiante de sua vitória nas eleições de hoje, o candidato – considerado herdeiro político do presidente Álvaro Uribe – promete melhorar as relações de Bogotá com Caracas, danificadas após repetidos desentendimentos entre o atual presidente colombiano e seu colega venezuelano, Hugo Chávez.
O governista também elogia a diplomacia do governo brasileiro e a cooperação que a Colômbia mantém com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A cooperação que temos com o governo Lula é um exemplo de como a segurança regional é um assunto que deve motivar a aproximação de países irmãos e não criar uma divisão”, afirmou o candidato. Leia abaixo a entrevista concedida por Santos ao Estado.
– Qual será o principal desafio do próximo presidente colombiano?
Agora que o presidente Álvaro Uribe nos devolveu a segurança, temos a enorme oportunidade de nos concentrarmos na criação de mais trabalho, deixando para trás os índices de desemprego que hoje passam dos 12%. Minha presidência garante duas coisas: primeiro, a preservação e a consolidação da segurança e da tranquilidade dos colombianos. Segundo: executaremos o que foi proposto, uma política centrada na criação de trabalho e oportunidades de empreendimento. Isso é o que os colombianos estão pedindo. Se o símbolo do governo do presidente Uribe foi a segurança democrática, quero se lembrem de mim como o presidente que deu trabalho para os colombianos.
– Como o sr. pretende melhorar as relações da Colômbia com a Venezuela?
Com diplomacia, prudência e absoluto respeito. Tenho muita admiração e carinho pelos venezuelanos e manterei esse comportamento em meu governo.
– Como será sua relação com o governo brasileiro?
Consideramos vários pontos como prioritários na relação com o Brasil. Queremos, entre outras coisas, aprofundar o comércio. O Brasil é um sócio estratégico para a Colômbia e nos últimos anos houve um crescimento importante do investimento brasileiro na Colômbia. Buscaremos criar vínculos empresariais cada vez mais fortes. Também queremos propor programas de atenção à população que mora na fronteira e intensificar a luta contra o narcoterrorismo na região. Devo destacar que a política externa brasileira é uma grande referência para a região. Sua tradição pacifista e de defesa dos interesses próprios e globais fazem do Brasil uma potência no presente e no futuro, com a qual compartilhamos interesses comuns.
– Foi revelado recentemente que as Farc mantêm bases em território brasileiro. A movimentação da guerrilha para outros países estaria relacionada ao êxito do Exército colombiano em combatê-la?
Sem dúvida a guerrilha está encurralada e busca refúgio nas zonas de fronteira. Tivemos dificuldades em algumas partes da fronteira por causa do movimento de grupos armados como as Farc, mas também ficamos satisfeitos do trabalho em equipe realizado com países vizinhos, como o Brasil. A cooperação que temos com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um exemplo de como a segurança regional é um assunto que deve motivar a aproximação de países irmãos e não criar uma divisão. Nós enfrentamos um terrorismo transnacional que afeta não apenas colombianos, mas também outros povos da região. Por essa razão fazemos um chamado a outros vizinhos para trocar informação, melhorar o controle na fronteira, evitar o fluxo de capital ilícito e agilizar a cooperação entre nossas instituições judiciais.
– Ainda há cerca de 20 reféns políticos sob domínio das Farc. Qual será a política de seu governo para libertá-los?
Os sequestrados devem ser libertados de maneira unilateral. Não deve haver margem de negociação com os guerrilheiros. Do contrário, o Estado deve buscar o resgate (dos reféns). Esse é um dever do Estado e foi assim que fizemos com a Operação Xeque, na qual resgatamos, sem disparar nem um tiro, 11 integrantes da Força Pública, Ingrid Betancourt e 3 americanos. A eficácia dos resgates também foi demonstrada na recente Operação Camaleão, na qual foram libertados quatro militares. Esse é um bom momento para recordar que, nos últimos anos, a imensa maioria dos sequestrados “anônimos” foi resgatada pela Força Pública sem que suas vidas fossem perdidas.
– Se eleito, o sr. acredita ser possível exterminar completamente as Farc durante seu governo?
Nós derrotaremos o terrorismo. Manteremos uma pressão constante sobre os grupos criminais, guerrilhas e terroristas. Faremos com que a segurança urbana seja tão eficaz como foi a segurança democrática contra a guerrilha. Vamos impulsionar a desmobilização como alternativa para os membros de organizações armadas, com programas de reintegração que ofereçam opções de vidas dignas.
– Qual é a principal qualidade de seu opositor nas eleições de hoje? Que ideia da oposição estaria disposto a aplicar em seu governo?
Propusemos um governo de unidade nacional, inclusivo, sem que a cor política importe. Do Partido Verde de Antanas Mockus admiramos o compromisso com a ciência e com a tecnologia.
– O que o sr. mudaria na relação com os EUA e suas bases militares?
O acordo militar com os EUA compreende o que se vem fazendo nos últimos anos com o Plano Colômbia. As importantes relações bilaterais que mantemos com os EUA têm uma vantagem fundamental e sua promoção é fruto do compromisso dos dois partidos políticos americanos. O Plano Colômbia, que foi o marco fundamental de cooperação militar, de luta contra o narcotráfico e apoio ao fortalecimento da institucionalidade, nasceu no ano 2000, durante o governo de Bill Clinton, e contou com o apoio dos partidos Republicano e Democrata. Posteriormente, durante os governos de George W. Bush e a atual administração do presidente Barack Obama, a cooperação manteve a mesma linha.

Tudo o que sabemos sobre:

Colômbia

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: