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Escândalos de corrupção agravam a crise na Espanha

Fernanda Simas

10 de fevereiro de 2013 | 12h21

Novas evidências mostram promiscuidade entre partidos, governo e empreiteiras

Por Andrei Netto, enviado especial a Madri

O termômetro marcava zero grau na noite de quarta-feira. Escorado no monumento ao rei Carlos III, sentado no chão e enrolado em cobertores de lã, Emilio Domingo, estudante de 18 anos, esfregava as mãos para se esquentar e garantia que seu sacrifício não era em vão. “É hora de rebelar-se contra a corrupção”, diz. “Estamos aqui contra o Partido Popular (PP), contra o presidente e contra a corrupção em geral.”

Ao fundo, outra jovem, Lucía García del Amo, de 17 anos, brincava com as palavras: “Presidente! Delinquente! Incompetente!” Ao redor dos dois, acampados na Puerta del Sol, centro de Madri, pouco mais de uma dezena de “indignados”. Com revolta, mas pouca ou nenhuma mobilização nas ruas, a Espanha vive um dos maiores escândalos de corrupção de sua história, o Caso Bárcenas.

Massacrada há cinco anos pela crise econômica, que levou o desemprego a 26,1%, a população se mostra farta da classe política, dos programas de austeridade e dos desmandos, mas não parece cansada de pedir mudanças. “Há dois anos, isso aqui estava cheio, mas não conquistamos nada. Desta vez, as pessoas não se conectaram. Há uma fatia muito grande da sociedade que está conformada”, afirma Domingo, lembrando o movimento dos indignados, que reuniu 3,5 milhões de pessoas em março de 2011 na Puerta del Sol, agora vazia.

Para Arturo Lahera Sánchez, diretor do Departamento de Sociologia da Universidade Complutense de Madri, uma das razões da baixa mobilização é que cada espanhol está ocupado em resolver a própria vida. “Quem foi às ruas em 2011 foi a juventude mais preparada, com muito acesso à informação. Agora, essa juventude está emigrando, buscando a vida fora do país”, diz Sánchez.

Entre manifestantes e analistas políticos ouvidos pelo Estado, uma convicção é comum: o escândalo de corrupção que cerca o premiê Mariano Rajoy e seu partido, o PP, não é exceção no país, minado pelo conflito de interesses entre políticos e empresas privadas.

O Caso Bárcenas, uma referência ao ex-tesoureiro do PP, Luis Bárcenas Gutiérrez, começou a ser desbaratado em janeiro. O jornal El Mundo fez as primeiras revelações sobre um esquema de caixa 2 e de pagamento, por empreiteiras, de propinas a líderes do PP entre 1990 e 2008. As denúncias inocentavam Rajoy, que, segundo o diário, teria tentado acabar com a farra.

Há dez dias, porém, o jornal El País publicou 14 páginas do caderno da contabilidade de Bárcenas. Nos documentos, escritos a mão, constam nomes de secretários e vice-secretários do partido, entre os quais o de Rajoy e o de seu antecessor, José María Aznar. Além deles, estão envolvidos ministros e ex-ministros conservadores, como Rodrigo Rato, economista e diretor do FMI entre 2004 e 2007.

Rajoy teria recebido mensalmente € 25,2 mil entre 1997 e 2008. Também é mencionado nas planilhas na rubrica “extras Mariano”. Ao todo, seriam € 322,32 mil em propinas. Rajoy só respondeu às acusações dois dias depois. “Jamais recebi ou distribuí dinheiro no mercado negro”, garantiu. O premiê também prometeu abrir seu sigilo bancário – o que não havia feito até a noite de sexta-feira.

O envolvimento da cúpula do governo teria tudo para incendiar as ruas, como ocorre a cada novo pacote de medidas de austeridade. Ao longo da semana, porém, isso não ocorreu. Uma das explicações é a saturação da opinião pública com denúncias que rondam os dois principais partidos – além do PP, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), do ex-premiê José Luis Zapatero.

“Há uma perda de legitimidade das elites políticas, em especial em uma democracia de pouca qualidade como a da Espanha”, diz Ferran Requejo, cientista político da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona. “Temos falhas na separação dos poderes, na Justiça, na hegemonia dos dois partidos. Isso causa desencanto e insatisfação.” Só no governo Rajoy, iniciado em novembro de 2011, houve oito escândalos. Antes, nos sete anos de gestão Zapatero, foram 21.
Nem a realeza se salva. Iñaki Urdangarin, genro do rei Juan Carlos, é acusado de ter se beneficiado de contratos irregulares firmados entre seu instituto, Nóos, com administrações regionais – um processo que envolve o desvio de € 6,1 milhões entre 2004 e 2007.

Nenhum escândalo, porém, foi tão relevante como o Caso Gürtel, com as primeiras suspeitas consistentes de corrupção na alta esfera do PP. Reveladas em 2009, as denúncias foram investigadas pelo juiz Baltasar Garzón, que foi excluído da magistratura, acusado de vícios de procedimento. O substituto de Garzón, Antonio Pedreira, arquivou o caso, que envolvia lavagem de dinheiro, tráfico de influência e pagamento de suborno a funcionários do PP.

Em troca de dinheiro, as mais de 20 empresas envolvidas recebiam vários benefícios, da alteração de regimes urbanísticos a normas ambientais mais generosas. O escândalo, revigorado pela descoberta de € 22 milhões em contas na Suíça não declaradas pelo PP, é a origem do Caso Bárcenas. Para muitos espanhóis, o cansaço vem dessa sequência interminável de escândalos e da impunidade. Angel Martín, de 48 anos, ex-proprietário de uma empresa de limpeza, hoje falida, diz que a crise financeira tem relação com a política. “Para mim, metade da culpa é das más gestões. A outra metade é corrupção.”

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