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Esforços dos EUA por cessar-fogo em Gaza deveriam fortalecer palestinos moderados

Na ânsia para por fim ao massacre em Gaza, o governo Obama pode ter criado obstáculos para soluções criativas e construtivas

Redação Internacional

31 de julho de 2014 | 01h20

Editorial / Washington Post

Como as iniciativas para forjar uma trégua, mesmo que temporária, não tiveram sucesso, o governo Obama vem protestando com indignação que a sua diplomacia foi denegrida injustamente pelos críticos, especialmente em Israel. Segundo o governo, o secretário de Estado, John Kerry, vem tentando simplesmente conter o massacre com base em acordos de
cessar-fogo anteriores, incluindo uma proposta egípcia que Israel aceitou há apenas duas semanas.

A explicação dos EUA é correta e mesmo algumas autoridades israelenses reconhecem que as críticas acerbadas e às vezes pessoais feitas a Kerry em Jerusalém foram exageradas. Mas os israelenses de todo o espectro político, como também o governo egípcio e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, reagiram muito mal às iniciativas de Kerry por uma boa razão: a estratégia americana não levou em conta como os combates em Gaza nas duas últimas semanas e os alinhamentos políticos imprevisíveis no Oriente Médio mudaram a maneira como seus aliados mais próximos encaram o fim do conflito.

A grande revelação deste combate em Gaza foi a que ponto o Hamas investiu na estocagem de mísseis capazes de atingir cidades israelenses e na construção de túneis que cruzam a fronteira e cujo único objetivo é desferir ataques dentro de território israelense. Israel insiste, com razão, que suas tropas devem permanecer em Gaza pelo menos por tempo suficiente para destruir os túneis. E defende que uma solução para o conflito será impedir o Hamas de concentrar a economia de Gaza na produção de mais mísseis e túneis.

A proposta de Kerry não abordou diretamente esse problema. Ao mesmo tempo que prometeu vagamente “solucionar todos os problemas de segurança”, ofereceu ao Hamas a perspectiva explícita de uma abertura de fronteira e financiamentos para pagar seus funcionários públicos. Estes termos do acordo foram defendidos pelos aliados regionais do Hamas, Turquia e Catar. O fato de Kerry recorrer a esses dois países como mediadores é um outro ponto discutível: ele teve o efeito de isolar os governos seculares do Egito e Abbas, que se colocam do outro lado da divisão do Oriente Médio entre as forças pró e anti-islamistas.

Israel exige o desarmamento do Hamas como condição para a paz. Apesar de o governo Obama retoricamente endossar tal objetivo, sabe que a curto prazo isto não é possível. Em nossa opinião o objetivo deve ser estudado mais a sério. Pode ser possível, por exemplo, estabelecer que o abandono pelo Hamas dos seus mísseis seja uma condição para se implementar medidas que permitam o desenvolvimento econômico de Gaza, como a abertura de um porto marítimo – uma troca que a população de Gaza aceitaria com agrado. No mínimo, novas regras de segurança deveriam ter como objetivo impedir o Hamas de importar mais equipamentos militares.

Numa perspectiva mais ampla, o governo Obama deveria estar trabalhando com Egito e Abbas, e também Israel, para um fim do conflito que reduza, e não fortaleça, o poder do Hamas em Gaza. O que não é algo irrealista: um acordo recente entre o Fatah, de Abbas, e o Hamas, formando um governo de unidade para a Cisjordânia e Gaza, seguido por eleições de novos líderes, pode oferecer um mecanismo. Abbas, que tem trabalhado intimamente com o Egito, aparentemente propôs que suas forças de segurança treinadas nos EUA protejam a fronteira
entre Gaza e o Egito, substituindo o Hamas.

Na ânsia para por fim ao massacre em Gaza, o governo Obama pode ter criado obstáculos para soluções criativas e construtivas como essas. Agora deveria apoiá-las.  / Tradução de Terezinha Martino

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