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EUA e China: sinais de uma nova bipolaridade

Cristiano Dias

04 de fevereiro de 2010 | 14h58

Ainda é cedo para bater o martelo, mas o recente atrito entre China e EUA deixa rastros de uma nova bipolaridade no ar. O antagonismo, porém, é diferente daquela rivalidade irreconciliável entre americanos e soviéticos na Guerra Fria. A globalização tornou Pequim e Washington tão dependentes entre si que um eventual divórcio seria sentido dos dois lados do Pacífico.

O Banco Mundial prevê que a China se torne o segundo país mais rico do mundo em 2010, ultrapassando o Japão e ficando atrás apenas dos EUA. De acordo com analistas, Pequim tem o equivalente a US$ 2,4 trilhões em reservas, sendo dois terços em dólar, e US$ 776 bilhões em bônus do Tesouro americano.

A compra desses títulos faz a China financiar boa parte do déficit dos EUA, de US$ 1,6 trilhão em 2010, anunciado esta semana pela Casa Branca. Essa relação simbiótica torna uma guerra comercial entre as duas potências um péssimo negócio. A queda constante do dólar diminui o valor das reservas chinesas, mas o máximo que Pequim pode fazer é reclamar da gastança desenfreada em Washington.

A contrapartida americana é importar US$ 338 bilhões em produtos chineses – um superávit comercial de US$ 268 bilhões em favor da China. O bom desempenho, de acordo com Washington, é resultado de uma desvalorização deliberada da moeda chinesa, mas a única coisa que a Casa Branca pode fazer é chiar contra a política comercial feita em Pequim.

Se no campo econômico não há vencedores, no diplomático a China vem dando uma surra nos EUA. Pequim venceu a corrida pelo gás natural da Ásia Central, tem a chave para as sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU, faz o que quer com a Coreia do Norte e impede qualquer ação contra a junta militar em Mianmar.

Na África, os chineses levam petróleo de Angola e do Sudão, cobalto e manganês do Congo e do Gabão, cobre de Zâmbia e platina do Zimbábue. Em troca, deixam investimentos em infraestrutura e uma batelada de produtos de quinta categoria. E os governos autocratas africanos preferem negociar com Pequim, que não impõe condições e não está interessada em direitos humanos, que é uma obsessão americana.

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