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Faltam líderes que decidam

Redação Internacional

18 de novembro de 2011 | 08h12

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Da Índia à Europa e aos Estados Unidos é difícil saber quem são os verdadeiros dirigentes atualmente

 

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER – O Estado de S.Paulo

 

Enquanto nos dirigíamos ao bazar coberto na exótica cidade de Jodhpur, na Índia ocidental, na semana passada, nosso guia indiano parou para nos mostrar um moderno ponto de referência. “Estão vendo aquelas luzes?” perguntou, mostrando um semáforo comum, verde, amarelo, vermelho, no cruzamento movimentado. “É o único de Jodhpur, uma cidade com 1,2 milhão de pessoas morando aqui.”

 

Quanto mais se viaja pela Índia, mais é possível observar como a mão do governo é muito pouco notada neste país. De certo modo, ela até funciona. O trânsito anda, mas, pela primeira vez em todos estes anos em que venho visitando a Índia, comecei a me perguntar se a estratégia “razoavelmente boa” da Índia em termos do governo continuará sendo “razoavelmente boa” por muito tempo.

Os enormes escândalos de corrupção sugaram bilhões de dólares em recursos públicos tão necessários e, mesmo que as façanhas dos jovens tecnólogos da Índia nos impressionem, considerando que o governo não lhes fornece as estradas, os portos, a banda larga, a eletricidade, os aeroportos e as regulamentações inteligentes de que necessitam para batalhar com sucesso, eles nunca chegarão a realizar plenamente seu potencial.

Não se trata apenas de uma questão teórica. O ar das maiores cidades da Índia é insalubre. Aqui, raramente se vê água – um rio, lago ou lagoa – que não seja poluída. O simples espremer-se da população – dentro em breve, a da Índia será maior do que a da China – num ambiente totalmente desprotegido parece realmente ter um preço muito alto. Sem uma administração melhor, será que a Índia poderá deixar de se tornar um desastre ecológico no prazo de dez anos? A lei das grandes multidões – 1,2 bilhão de pessoas – começa agora a engolir cada mínimo passo para frente que a Índia dá. Ela não precisa se tornar outra China, e não se tornará. Mas ainda precisa provar que sua democracia pode tomar e adotar grandes decisões com a mesma determinação, autoridade e firme adesão aos próprios propósitos da autocracia da China.

Azim Premji, o presidente da Wipro, uma das maiores empresas de tecnologia da Índia, não mediu suas palavras a respeito do futuro quando anunciou os lucros de sua companhia, há duas semanas: “Há uma completa falta de capacidade de decisão entre os líderes no governo. Se não forem tomadas medidas urgentes, o país sofrerá um colapso. É preciso se compenetrar da gravidade da situação”.

Não parece uma constatação familiar? Premji poderia estar falando da União Europeia ou dos Estados Unidos. Nenhum líder quer tomar decisões difíceis em nenhuma parte do mundo, a não ser se for obrigado. Todos – até mesmo os dirigentes chineses – parecem temer mais do que nunca o próprio povo. Eu me pergunto se a internet, os blogs, o Twitter, as mensagens de texto e os microblogs, como no caso da China, tornaram a democracia participativa e a autocracia tão participativa, e os líderes tão sintonizados com todas as nuances da opinião pública, a ponto de acharem difícil tomar importantes decisões que exigem sacrifícios. É que eles têm muitas outras vozes na cabeça além das próprias.

Agora, aqui estamos de volta nos Estados Unidos, às vésperas de uma grave decisão sobre o orçamento que precisa ser tomada por mais uma “supercomissão” bipartidária; alguém sabe qual seria o resultado preferido do presidente Barack Obama? Quais são exatamente os impostos que ele quer que aumentem, e quais os gastos que ele quer que sejam cortados? A política do presidente a este respeito parece um mingau testado por meio de pesquisas.

Neste momento, em que da Índia aos EUA as democracias nunca precisaram tomar decisões mais difíceis do que agora se quiserem proporcionar melhores padrões de vida ao seu povo, esta incapacidade endêmica de tomar decisões constitui uma tendência preocupante. Significa que estamos abdicando cada vez mais da liderança em favor dos tecnocratas ou das supercomissões – ou deixando simplesmente que o mercado e a mãe natureza nos imponham decisões que não conseguimos tomar por nossa conta. Esta última alternativa raramente dá bons resultados.

Tecnocratas. A União Europeia apresenta uma versão particularmente aguda de líderes que não lideram, e é por isso que tanto a Grécia quanto a Itália agora decidiram recorrer a tecnocratas não eleitos para tomar as rédeas dos seus governos. Em um artigo publicado no Financial Times de sábado, Tony Barber observou: “De fato, os responsáveis pelas decisões na zona do euro resolveram suspender a política em dois países por considerá-la uma ameaça mortífera à união monetária da Europa. Eles determinaram que a unidade europeia, um projeto nascido há mais de 50 anos, é de importância tão fundamental que os políticos que deveriam prestar contas ao povo e precisam sair para deixar o lugar a especialistas que não foram eleitos pelo voto, mas que poderão fazer as coisas funcionar. Se até o momento não há grande indignação pública em Atenas e em Roma, certamente é porque milhões de gregos e italianos desprezam profundamente seus políticos”.

Sim, é verdade que no mundo hiper conectado da era do Facebook e do Twitter, as pessoas têm muito mais poder, e surgirão muito mais inovação e ideias de baixo para cima, e não apenas de cima para baixo. É uma coisa excelente – em teoria. Mas em última análise, seja você um presidente, senador, prefeito ou membro da comissão diretora do movimento Ocupe Wall Street – alguém precisa fundir estas ideias para extrair uma visão de como ir em frente a partir delas, esculpi-las em medidas que possam mudar a vida das pessoas e depois constituir uma maioria para cumpri-las. Estes são os chamados líderes. Os líderes trabalham a partir das sondagens. Eles não se limitam a lê-las. E hoje, em todo o globo e em todos os sistemas políticos, os líderes são perigosamente escassos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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