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‘Farc vão assimilar morte de comandante’, diz analista

Redação Internacional

21 de novembro de 2011 | 18h47

Com financiamento do narcotráfico, Farc se tornaram o maior grupo irregular organizado do mundo, diz analista

Por Lourival Sant’Anna

A morte do comandante Alfonso Cano tem mais impacto sobre o moral das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) do que sobre sua capacidade de organização. Financiada pelo narcotráfico, e com cerca de 10 mil guerrilheiros, bem armados, treinados e motivados, as Farc são o maior grupo irregular bem organizado do mundo. Não há no curto prazo a possibilidade de vencê-la militarmente. A saída para o conflito é a negociação – difícil, mas não impossível. A análise é do sociólogo Luis Eduardo Celis, pesquisador do conflito armado na Corporación Nuevo Arco Iris, de Bogotá, em entrevista ao Estado.

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Ouça a entrevista com Luis Eduardo Celis

Radar Global: O que a morte de Alfonso Cano significa para as Farc?
Luis Eduardo Celis: Tem um custo simbólico. Embora no passado recente tenham morrido membros do secretariado, é a primeira vez na história que seu comandante máximo é morto. As Farc tiveram dois comandantes gerais: um histórico, durante décadas, Manuel Marulanda, que morreu de causa natural em 2008, e Cano. Então é um golpe em seu moral, muito menos organizacional. Perdem um homem com experiência política. Cano começou a se articular nas Farc em 1973. Mas as Farc vão assimilá-lo. Está na cultura, no DNA das Farc, a luta contra as adversidades. Seu caráter é forte.

Radar Global: Segundo as notícias, ele estava só com 14 guerrilheiros. Não é uma mostra de debilidade?
Luis Eduardo Celis: Não. Ele estava tentando se camuflar em uma zona que não é de selva, mas em uma casa, rodeada de população civil. Então é compreensível que estivesse com um grupo pequeno. As Farc têm uma força importante na região, o norte do Departamento de Cauca, que fica no sudoeste do país. Ou seja, ele saiu de sua zona histórica, o sul de Tolima, onde as Farc surgiram, e onde esteve por muitos anos. Mas sua estrutura de segurança foi muito debilitada nos últimos três, quatro anos. Se ele se moveu foi porque se sentiu inseguro.

Radar Global: As Farc ainda se organizam em muitas frentes?
Luis Eduardo Celis: Sim, o comandante do Exército, general Sergio Mantilla, deu uma cifra de 11 mil homens das Farc e o das Forças Armadas (general Alejandro Navas), de 8.900. Sejam 8.900 ou 11 mil, em 70 estruturas nos 21 Departamentos do país, não há nenhuma força irregular no mundo com esse número de combatentes disciplinados, com experiência, armamento, logística, comando, motivação, presença territorial, vínculos comunitários e cultura de organização.

Radar Global: Eles se comunicam com celular, telefone via satélite, internet?
Luis Eduardo Celis: Creio que cada vez recorram menos à tecnologia. Seguem usando de maneira indireta, por terceiros. Mas os principais comandantes tomam muito cuidado. Creio que estão recorrendo mais a mensageiros pessoais. Mas não perderam a capacidade de comunicação entre eles. De fato, Alfonso Cano morreu na sexta, dia 4, e 24 horas depois já havia um comunicado das Farc sobre sua morte. Isso demonstra capacidade de reação.

Radar Global: O financiamento continua sendo pelo narcotráfico?
Luis Eduardo Celis: Sim. Especulando, diria que 70% é com base no narcotráfico. Talvez 20% seja via extorsão e sequestro. Têm também investimentos na economia formal e um esforço próprio.

Radar Global: O sr. vê alguma possibilidade de negociação depois da tentativa do então presidente Andrés Pastrana em 1999?
Luis Eduardo Celis: Esse é um conflito armado não resolvido. Somando Farc e ELN (Exército de Libertação Nacional), estamos falando de 12 mil a 15 mil combatentes, que em determinadas circunstâncias podem aumentar um pouco. Têm motivação ideológica. A explicação de sua existência está em um grande desarranjo no campo. A falta de garantias na competição política tem mantido essas organizações. A derrota militar não será possível no curto prazo. Daí a pergunta: se poderia combinar a pressão militar com um cenário de negociação? Eu diria que isso é possível, com um processo de reformas que motive as Farc e o ELN a deixar as armas: um reordenamento mais equitativo no campo, que integre populações que não têm tido oportunidades, que pense mais no desenvolvimento rural e na infraestrutura do campo, e um sistema de maior competição política. Não é fácil, mas é possível.

Radar Global: O governo tem essa vontade?
Luis Eduardo Celis: Eu diria que sim. O governo está propondo reformas nos temas que deram origem ao conflito: a competição política e o desenvolvimento rural e das regiões onde a violência tem sido mais aguda. Somando aos temas próprios de um longo ciclo de violência – as vítimas, a verdade, a Justiça, a reparação –, pode-se construir um acordo.

Radar Global: Os EUA continuam apoiando financeira e militarmente?
Luis Eduardo Celis: A cooperação militar teve um ciclo importante entre 1998 e 2006. Tem diminuído muito. Hoje a capacidade do Estado de enfrentar as guerrilhas é muito maior do que em 1998. E tenho a impressão de que o governo americano vê um acordo (de paz) com bons olhos.

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