Fazendo piada das crenças religiosas de vice, Trump diz que Pence quer ‘enforcar’ os gays
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Fazendo piada das crenças religiosas de vice, Trump diz que Pence quer ‘enforcar’ os gays

'Washington Post' destaca três pontos principais de perfil que revista 'New Yorker' fez sobre Mike Pence, diante da possibilidade de ele vir a ocupar um dia a Casa Branca no lugar de Donald Trump

Redação Internacional

18 Outubro 2017 | 06h00

Presidente Donald Trump e sua administração estão envoltos em controvérsias que se recusam a desaparecer. Sua lista de críticos está crescendo. Alguns de seus aliados o estão abandonando. Outros, pedindo seu impeachment. Até mesmo o ex-estrategista da Casa Branca e conselheiro Steve Bannon tem, de acordo com a revista Vanity Fair, dito às pessoas que ele acredita que Trump tem apenas 30% de chance de completar seu mandato.

O vice-presidente americano, Mike Pence. Foto: Mike Segar/Reuters 

Com todos esses elementos sobre a mesa, a revista New Yorker publicou um aprofundado artigo sobre as forças políticas e financeiras por trás do vice-presidente, Mike Pence, o homem que poderia suceder Trump caso ele fosse removido do cargo.

Em um perfil publicado na segunda-feira com o título “O Perigo do Presidente Pence”, a revista mostra a influência extraordinária que o vice e sua rede de contatos de megadoadores ligados à ultradireita – particularmente os irmãos bilionários Koch – têm tido na agenda de Trump desde a escolha do companheiro de chapa.

A história contém um número de revelações colhidas durante entrevistas com Bannon e outros que orbitam o presidente, assim como várias fontes do governo que falaram sob condição de anonimato oferecendo impressões sobre o relacionamento entre Trump e Pence. O Washington Post destacou três pontos que considerou os principais do artigo:

1 – Trump já zombou das crenças religiosas de Pence e uma vez brincou que ele queria “enforcar” todos os gays.

Pence é um cristão evangélico que faz campanha feroz contra os direitos LGBT e o aborto e mantém um grupo de estudo da Bíblia na Casa Branca. Ele segue a chamada regra de Billy Graham, se recusando a jantar sozinho com outra mulher ou a comparecer a um evento onde alguma bebida com álcool é servida a menos que esteja acompanhado de sua mulher.

Trump, que não compartilha das crenças linha-dura de Pence, em mais de uma ocasião fez piada da religiosidade do vice-presidente e suas visões socialmente conservadoras, de acordo com a New Yorker. Citando fontes anônimas, a reportagem descreve um encontro em que Trump zombou Pence por tentar tornar o ilegal o aborto e fazendo piadas com gays:

“Duas fontes também disseram que Trump provocou Pence sobre suas visões sobre aborto e homossexualidade. Durante uma reunião com um professor de direito, Trump citou a determinação de Pence de derrubar o prerrogativa Roe v. Wade (que legalizou o aborto). O especialista disse que se a Suprema Corte fizesse isso, muitos Estados legalizariam o aborto por conta própria”, escreveu a revista. “Viu só?”, perguntou Trump a Pence. “Você iria gastar todo esse tempo e energia nisso, e no fim não colocaria fim ao aborto”. Quando a conversa passou para os direitos gays, Trump brincou: “Nem pergunte isso, ele (Pence) quer enforcar todos eles!”.

Citando Bannon, a New Yorker também afirma que Trump faz algumas perguntas, de forma ridícula, a alguns visitantes da Casa Branca, como “Mike (Pence) fez você rezar?”.

O governador de New Jersey, Chris Christie. Foto: AP Photo/Julio Cortez

 

2 – Chris Christie alertou ao presidente sobre Michael Flynn. Pence ficou em silêncio, e isso pode ter prejudicado a Casa Branca.

Antes de o governador de New Jersey Chris Christie ter sido substituído por Pence, sem cerimônia, como o chefe da equipe de transição de Trump, Christie alertou a Trump para não dar um alto cargo ao general aposentado Michael Flynn, dizendo que isso seria muito arriscado, segundo a revista. A New Yorker cita uma tensa reunião entre Christie e Ivanka Trump sobre a transição de governo. Inesperadamente, a filha do presidente convidou Flynn e um de seus aliados para a reunião e Christie pareceu chocado: “Senhores, posso ajudá-los?”, perguntou Christie. Ivanka, que era membro do conselho executivo do time de transição, anunciou que ela havia convidado eles. O governador tentou tomar o controle da reunião, mas Ivanka continuou, saudando Flynn como um “homem leal” a seu pai e perguntou a ele qual cargo ele gostaria de ter.

Dentro de algumas horas, Christie foi dispensado. Quando Pence o substituiu, diz a revista, “as portas da Casa Branca estavam abertas para Flynn”, que foi nomeado conselheiro de segurança nacional alguns dias depois. Pence não pareceu preocupado com o fato de ele ocupar uma posição tão sensível, mesmo depois de ter sido alertado como o general havia falhado em explicar suas conexões com o lobby em favor dos interesses turcos e suspeitas de conexão com os russos.

Em fevereiro, após menos de um mês no cargo, Flynn admitiu ter mentido a Pence sobre uma conversa entre ele e o embaixador russo. O general foi demitido no dia 13 daquele mês.

Steve Bannon (C) foi conselheiro de Trump. Foto: Washington Post photo by Jabin Botsford

 

3 – Bannon preocupado com o fato de Pence se tornar presidente.

“Estou preocupado com o fato de que ele (Pence) possa vir a ser o presidente, controlado pelos Kochs”, diz Bannon à revista. A reportagem traz algumas frases do conselheiro, que retornou para seu posto de presidente executivo do site Breitbart News após ser dispensado por Trump em agosto. O fato mais explosivo surgiu em uma seção sobre as profundas conexões entre Pence e os irmãos Koch, que são conhecidos por colocar bilhões de dólares em causas conservadoras e campanhas políticas. De acordo com a revista, a relação de Pence com os irmãos tem sido crucial na sua trajetória política.

Bannon afirmou à revista estar alarmado sobre Pence substituir Trump no Salão Oval. “Estou preocupado com o fato de que ele seria o presidente dos Kochs”, disse. O senador democrata Sheldon Whitehouse deu declaração parecida dizendo que “o governo americano seria conduzido pelos irmãos Kochs. E ponto final”.

Bannon também discutiu com Pence como ele poderia ajudar a reunir as facções nacionalistas e a ala conservadora do Partido Republicano. Segundo a revista, uma vez que Pence entrou para a chapa republicana, alguns dos amigos bilionários dos Kochs começaram colocar todo seu peso no nome de Trump. Pence é “o cara importante, que dá a liga”, disse Bannon. “Sem Pence, você não vence.” / WASHINGTON POST