Fotojornalista relata experiência de cobrir os atentados em Paris
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Fotojornalista relata experiência de cobrir os atentados em Paris

Kenzo Tribouillard detalha como foi o momento dos ataques e o clima da cidade nos dias que se seguiram. ‘Parisienses aprenderam a viver com medo permanente; sabemos que o telefone pode tocar a qualquer momento para cobrir algo terrível’

Redação Internacional

27 de novembro de 2015 | 13h14

PARIS – Há duas semanas, o fotojornalista da agência de notícias France-Presse, Kenzo Tribouillard, foi chamado por seu editor para cobrir os relatos de uns disparos feitos próximos a um bar. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, ele fala sobre sua experiência enquanto fazia a cobertura dos atentados em Paris, no dia 13 de novembro.

Dia dos ataques – sexta-feira, 13 de novembro

Eu estava em casa com a minha família após um dia normal de trabalho. Todos os fotojornalistas da agência voltam para casa com as câmeras pois geralmente somos chamados durante a noite para cobrir incêndios e outros incidentes. Mas naquela noite, quando meu chefe me ligou para contar sobre “os tiros em uma rua próxima a um bar”, algo soou diferente.

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A rua em questão fica no meio de Paris. Desde os ataques ao jornal Charlie Hebdo, o terror está sempre em nossas mentes. Ao mesmo tempo em que atendi a ligação, recebi o primeiro alerta no meu celular. Rapidamente pulei na minha moto e, no caminho para a cena do crime, cruzei com ambulâncias e bombeiros. Quanto mais perto eu chegava do local, mais sirenes e luzes eu via e ouvia. Quando cheguei, a situação não estava completamente clara. Uma rua estava fechada, pessoas na região olhavam chocadas, e havia muita tensão. Estacionei minha moto e peguei minha câmera, mas não pude me movimentar. Os policiais seguravam armas e pareciam muito nervosos. Você podia sentir que a ameaça era real.

Decidi ir para outro lugar pois não conseguia ver nada de onde eu estava. Passei por uma ambulância e decidi segui-la. O novo lugar era um pouco mais distante de onde meu editor havia me mandado, o que pareceu estranho, mas ali eu conseguia ver algumas pessoas feridas sendo colocadas em ambulâncias e bombeiros se movimentando. Tirei as primeiras fotografias e enviei todas para a redação diretamente da câmera.

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Conversei com um morador que estava na janela e me convidou para ir ao seu apartamento. Ele explicou que ouviu alguns tiros e viu três ou quatro pessoas mortas no terraço de um bar. Da varanda eu podia ver um corpo estendido sob um lençol branco.

Enquanto meu chefe me informava que outros fotógrafos estavam a caminho, comecei a perceber a enormidade do ataque em Paris. Liguei para um colega para descobrir onde ele estava, e ele me disse que estava no porão de um restaurante. Ele estava na Praça da República quando ouviu os disparos e a polícia pediu que todos se escondessem nos prédios. Pouco tempo depois, recebi mais um alerta: pessoas estavam sendo feitas reféns no Bataclan.

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O chefe de fotografia da AFP me disse para ficar onde eu estava. Certo tempo depois, subi no telhado para fazer imagens do terraço do Café Bonne Bière.

Dia seguinte aos ataques – sábado, 14 de novembro

Cheguei em casa às 3h da manhã. Eu estava ansioso para descansar, sabendo que teria um longo dia pela frente. Estaríamos cobrindo as investigações policiais, as homenagens às vítimas e o estado de emergência.

Às 6h, encontrei o meu colega e fomos aos locais dos ataques.

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Tributos

As pessoas começaram a homenagear as vítimas nos restaurantes Le Carillon e Le Petit Cambodge, levando flores e velas. Havia sangue no chão e buracos de balas nas paredes. As pessoas pareciam cansadas e chocadas. Quando cheguei ao Bataclan, a cena era surreal: parisienses chegavam com flores enquanto dezenas de jornalistas internacionais acertavam suas câmeras, um homem tocava “Imagine”, de John Lennon, no piano, e autoridades removiam os corpos da casa de shows.

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Memória

Segui uma rotina semelhantes nos três dias seguintes: ia aos locais onde haviam ocorrido os atentados e tirava fotografias de pessoas de luto. Paris estava muito tensa. No domingo, passei um tempo no apartamento de um homem que havia visto pela janela os terroristas atirando nas pessoas. Ele chorava e eu não sabia como confortá-lo.

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As pessoas tentavam voltar para suas rotinas, mas o horror dos atentados teve um grande impacto. Talvez elas tivessem perdido alguém, talvez elas tivessem visto os ataques, mas tiveram que voltar ao normal. Isso deve ter sido muito difícil.

Saint-Denis – quarta-feira, 18 de novembro

Na manhã de quarta-feira, eu estava dormindo quando o telefone tocou às 5h da manhã. Entendi que uma grande operação policial acontecia em Saint-Denis. Quando cheguei, a cena era surpreendente: o Exército francês estava no local e moradores que haviam saído do perímetro eram conduzidos pela polícia.

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A operação levou horas. Em um certo momento, a polícia saiu do prédio com duas pessoas nuas. Descobrimos mais tarde que não eram suspeitos de terrorismo.

Após os ataques

A vida agora está começando a voltar ao normal. Os parisienses aprenderam a viver com medo permanente. Sabemos que o telefone pode tocar a qualquer momento para cobrir algo terrível.

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