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Gilles Lapouge: A Turquia, a Otan e a intervenção na Líbia

Redação Internacional

26 de março de 2011 | 16h40

Na quarta-feira, respiramos aliviados: a operação na Líbia contra o regime ignóbil do ditador Muamar Kadafi, que provocou tanto barulho nos seus primeiro dias, foi salva. França, Grã-Bretanha e Estados Unidos entraram em um acordo para confiar o comando da operação para proteger os civis líbios à Oganização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), única estrutura político-militar apropriada para conduzir com bom senso um assunto tão complicado. Claro que a França de Nicolas Sarkozy, que não queria a Otan, fez careta. Mas enfim, mesmo Sarkozy se achando o maior homem de Estado do século, não podia contrariar a razão. Também não podia contrariar o presidente americano, Barack Obama, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, unidos na disposição de entregar a tarefa à aliança atlântica. Assim, o problema foi resolvido.

Mas na manhã de quinta-feira, tudo parecia ter caído por terra. O acordo entre França, Grã-Bretanha e Estados Unidos ficou obstruído.

Um empecilho paralisou a mecânica da Otan. E esse empecilho chama-se Turquia. A Turquia, com certeza, aceita auxiliar com alguns submarinos, na vigilância de uma vasta zona do Mediterrâneo. Em compensação, Ancara não queria se associar a uma ação que, na Líbia, provocasse vítimas civis.

Os turcos também não queriam, de maneira nenhuma, participar da criação de uma zona de exclusão aérea sobre o território líbio enquanto aviões franceses, britânicos e americanos, bombardeassem as cidades.

Ahmet Davutoglu, ministro turco das Relações Estrangeiras, foi duro: “Não vamos nos imiscuir numa operação que alguns descrevem como uma cruzada”.

Ora, como a Turquia é parte integrante da aliança atlântica e todas as decisões no âmbito da organização devem ser adotadas por consenso, o grande motor da OTAN engasgou e depois, na ausência dos turcos, ameaçava emperrar de vez.

É de espantar que tantos diplomatas inteligentes – franceses, britânicos e americanos – não imaginaram, por um segundo, uma eventualidade como essa que um jornalista, o mais medíocre da Província de Ontário, ou do Principado de Andorra teria previsto.

Alemanha arisca

A Alemanha, da chanceler conservadora Angela Merkel, que decididamente não simpatiza com essa “guerra de Sarkozy”, ficou do lado da Turquia. Retirou da Otan o comando dos seus navios no Mediterrâneo por que não deseja participar do embargo de armas com destino à Líbia.

A França, mesmo que um pouco inquieta ao ver que a solução da crise líbia poderia ser protelada, não ficou tão descontente com o obstáculo que surgiu. Sua ideia, até sensata, é a seguinte: é preciso de qualquer maneira impedir que as operações na Líbia sejam alardeadas ruidosamente como sendo da Otan.

De fato, a organização é detestada pelos árabes e corremos o risco de nos envolver numa terceira guerra, entre o mundo cristão e o mundo muçulmano (após as aventuras lideradas pelos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão).

No entanto, essas disputas, enquanto a coalizão prossegue com seus ataques, são lamentáveis. Além disso, todos os diplomatas estão tentando encontrar uma maneira de acabar com o impasse e retomar tranquilamente o trabalho na Líbia.

Tentam encontrar palavras, fórmulas, paráfrases, apócopes, catacreses, metonímias, metáforas, adequadas para que nada mude nos planos dos altos comandos militares, mas de modo a parecer que não provêm da Otan.

Apostamos que, daqui a pouco, vão nos anunciar com brados de alegria que, no lugar da Otan, como cérebro da operação, será colocada alguma outra coisa, um “negócio”, uma sigla, um termo “grupo de contato” ou “comitê político”, que assumirá o controle do caso.

Na quinta-feira, a relutante Turquia acabou aceitando um acordo para transmitir o comando da operação à Otan, sob a condição de que isso não implique em ações terrestres – um cenário de pesadelo para Washington

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