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Gilles Lapouge: Londres ignora a Europa

Robson Morelli

25 de julho de 2010 | 15h35

O novo primeiro-ministro britânico, o conservador David Cameron, que sucedeu ao trabalhista Gordon Brown, começou bem. Designado em maio, já subiu 10pontos porcentuais na opinião do eleitorado. Hoje, é apreciado por 58% dos britânicos. Ele seduz pela calma; sua fleuma agrada aos britânicos.

Cameron é um pragmático, virtude essencialmente britânica. Em lugar de afogar seu público sob rios de eloquência, “à francesa”, Cameron aborda um problema de cada vez e o resolve em função dos interesses britânicos, em vez de obedecer a uma ideologia.

Foi assim que o novo ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, renovou a estratégia com a União Europeia. Devemos lembrar que, há 60 anos, Londres, embora faça parte do bloco, detestava a Europa. Todos os premiês ingleses (com exceção de Tony Blair) combateram Bruxelas e a União Europeia.

Em razão disso, os britânicos sempre se recusaram a ingressar na zona do euro, ou seja, a substituir a libra esterlina pelo euro. Londres fazia um jogo nebuloso. Pertencia à União Europeia, porque não tinha outra escolha, mas seus diplomatas faziam todo o possível para sabotar ou paralisar as iniciativas de Bruxelas. Londres sempre foi cheia de eurocéticos.

Agora, Cameron adotou uma outra estratégia. O chanceler Hague acaba de inaugurar novos procedimentos. Em lugar de lutar contínua e inutilmente contra a Europa, ele prefere ignorar o continente. Ou melhor, reduziu a União Europeia a uma espécie de clube, a uma instituição regional de influência limitada e segundo a qual, em todo o caso, Londres não pautará, de modo algum, sua conduta.

A nova diplomacia de William Hague volta à grande tradição britânica. Certamente, a Europa é um continente importante e países como a França ou a Alemanha não podem jamais ser negligenciados.

Turquia
No entanto, a Europa é apenas uma parte do mundo. Os britânicos sempre sentiram o fascínio do “além-mar”, da América, em primeiro lugar, mas também por continentes sobre os quais antigamente tremulava a bandeira do Império Britânico: África, Oriente Médio, Extremo Oriente e Oceania.

Portanto, a diplomacia britânica não se baseará em uma diplomacia europeia imaginada e executada por Bruxelas. Por exemplo, até o momento, a União Europeia recusou-se a abrir suas portas para a Turquia, sob o pretexto de que o país é, em grande parte, asiático e muçulmano.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, apaixonado pela civilização cristã, sempre se opôs ao ingresso da Turquia na União Europeia. Pois bem, aos olhos de Londres, a Turquia é, ao contrário, um país muito importante e será tratado pelos ingleses como tal.

São os novos caminhos da diplomacia britânica. Até agora, Londres dedicava seu tempo e sua energia a criticar, a contrariar a União Europeia. Mas Cameron não está disposto a perder seu tempo com esse tipo de escaramuça.A Grã-Bretanha continuará na Europa, porque é cômodo, mas Bruxelas deve perder as esperanças de impor seus esquemas à diplomacia de Londres.

Cameron tampouco pretende criticar a Europa. Ele prefere mantê-la à distância, colocá-la “entre parênteses”. Sempre que ele achar conveniente, fará como se a União Europeia não exista. Nesse sentido, Cameron anuncia o fim do euroceticismo, que ocupou os britânicos durante 60 anos, e o substitui pelo “eurodesconhecimento”.

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